Folclore

O folclore é o conjunto de tradições, lendas, costumes e histórias populares transmitidos de geração em geração, preservando a cultura de um povo.

 

O que é folclore?

Folclore é o conjunto de saberes e práticas culturais que as pessoas compartilham e recriam na convivência em comunidade. Seus participantes transmitem histórias e modos de fazer, ensinados em relações familiares ou em grupos com experiências comuns. Uma cantiga aprendida durante uma brincadeira e uma técnica artesanal ensinada entre gerações podem integrar esse repertório.

Ao estudar o folclore, pesquisadores investigam quem mantém uma tradição e em quais situações as pessoas a praticam. Nas cidades e no campo, os participantes adaptam o que aprenderam às condições de sua vida. Por isso, o estudo abrange tanto os conhecimentos recebidos dos antepassados quanto as mudanças realizadas por seus praticantes.

 

Origem do termo e desenvolvimento dos estudos

O antiquário inglês William John Thoms propôs a palavra “folk-lore” em uma carta publicada no periódico “The Athenaeum”, em 22 de agosto de 1846. Ele reuniu os termos ingleses “folk”, povo, e “lore”, saber. Com a expressão, nomeou costumes e conhecimentos populares que estudiosos de sua época recolhiam e descreviam.

Durante o século XIX, muitos pesquisadores registraram narrativas orais e práticas que acreditavam estar desaparecendo. Alguns as trataram como sobrevivências de um passado remoto e classificaram seus praticantes por critérios que hoje recebem críticas. Ao longo do século XX, estudiosos passaram a examinar com maior atenção a experiência das comunidades e as transformações de suas tradições.

No Brasil, Luís da Câmara Cascudo reuniu pesquisas no “Dicionário do Folclore Brasileiro”, publicado em 1954. Edison Carneiro investigou expressões populares e discutiu suas mudanças em “Dinâmica do folclore”. Em seus trabalhos, os pesquisadores recorreram a observações e a relatos de participantes, além de consultar registros escritos.


Características das práticas folclóricas

Os pesquisadores observam características recorrentes, que variam conforme a manifestação e o grupo estudado:

• As pessoas aprendem com outros participantes, por meio da escuta ou da observação, e aperfeiçoam seus conhecimentos durante a prática.

• Os integrantes de um grupo reconhecem uma história ou um costume como parte de sua experiência compartilhada.

• Os participantes conservam referências recebidas de gerações anteriores e podem alterar detalhes de uma apresentação ou de um objeto.

• Uma mesma brincadeira ou narrativa pode receber nomes e versões distintos conforme a localidade.

• Artesãos e narradores acrescentam escolhas pessoais aos repertórios que aprenderam, podendo tornar-se conhecidos por suas criações.

 

Tradição, autoria e transformação

Ao transmitir uma tradição, as pessoas selecionam conhecimentos e decidem como ensiná-los. Um mestre de uma manifestação pode conservar uma sequência cerimonial enquanto incorpora materiais disponíveis no comércio. Os participantes também discutem quais mudanças aceitam e quais comprometem o sentido que atribuem à prática.

Em parte das cantigas e narrativas, o nome do primeiro criador se perdeu durante a transmissão. Em outras expressões, os autores são conhecidos: poetas assinam folhetos de cordel e compositores criam toadas para grupos de bumba meu boi. O reconhecimento de uma autoria individual pode coexistir com o aprendizado de formas compartilhadas de compor.

Uma família que migra pode levar receitas e repertórios de festas para outra cidade. Ao encontrar novos vizinhos, seus integrantes adaptam ingredientes ou negociam espaços para celebrar. Para estudar essas mudanças, o pesquisador acompanha as decisões das pessoas envolvidas e compara suas experiências.

 

Formação do folclore brasileiro

No território brasileiro, povos indígenas mantêm conhecimentos ligados às próprias línguas e formas de vida. Africanos trazidos sob escravização e seus descendentes recriaram práticas em condições de violência e resistência. Colonizadores portugueses também trouxeram repertórios que seus descendentes modificaram ao longo do tempo.

Essas populações estabeleceram relações desiguais, e seus descendentes criaram expressões locais por meio de encontros e disputas. Outros grupos de imigrantes acrescentaram costumes às regiões em que se estabeleceram. Para explicar a formação de uma manifestação, os pesquisadores examinam sua trajetória, em vez de atribuir a cada povo uma contribuição fixa e isolada.

Uma festa dedicada a um santo católico pode reunir práticas que seus organizadores aprenderam em comunidades negras. Já uma narrativa sobre um ser da floresta pode circular entre povos indígenas e moradores de cidades, com alterações no enredo. Em cada caso, é preciso identificar quem conta ou pratica e qual sentido atribui ao que aprendeu.


Lendas e personagens das narrativas populares

Os narradores contam lendas associadas a lugares ou a acontecimentos que seus ouvintes reconhecem. Ao falar de uma aparição em uma estrada, por exemplo, podem citar uma ponte e descrever a experiência de um morador. Quem ouve relaciona a história às próprias crenças e pode transmiti-la com novos detalhes.

Em versões brasileiras conhecidas, o saci aparece como um personagem de uma perna só que prega peças. Narradores atribuem a ele o desaparecimento de objetos ou nós feitos nas crinas dos cavalos. Já o curupira, descrito em muitas histórias com os pés voltados para trás, confunde quem entra na mata e pode castigar caçadores.

Na Amazônia, moradores contam histórias em que o boto assume forma humana e participa de festas. Os enredos mudam conforme o narrador e podem abordar relações amorosas ou perigos atribuídos aos encontros. Livros escolares costumam reunir uma versão de cada personagem, enquanto nas comunidades os pesquisadores encontram relatos divergentes.


Cantigas e brincadeiras

Nas brincadeiras de roda, crianças aprendem versos e movimentos ao participar com colegas. Elas podem modificar palavras de uma cantiga ou combinar novas regras. Quem investiga essas práticas observa como os participantes escolhem os papéis e resolvem desacordos durante a brincadeira.

Na amarelinha, os jogadores desenham um percurso no chão e seguem regras sobre saltos e casas. Em jogos de esconder, negociam limites do espaço e formas de encontrar os colegas. Os nomes dessas brincadeiras podem mudar entre bairros, assim como os critérios para vencer ou recomeçar.

Adultos também transmitem acalantos, cantados para adormecer crianças. Em encontros familiares, participantes propõem adivinhas ou recitam trava-línguas. Nas duas situações, quem aprende pode repetir as palavras e experimentar variações diante de novos ouvintes.


Festas e apresentações coletivas

Os organizadores de festas populares distribuem tarefas e ensinam os participantes mais novos. Nas folias de reis, grupos de cantadores e músicos visitam casas durante o ciclo natalino, com práticas que variam entre localidades. Anfitriões recebem os visitantes e podem oferecer alimentos ou contribuições para a celebração.

No Maranhão, os grupos de bumba meu boi mantêm repertórios de toadas e preparam suas apresentações ao longo do ano. Muitos brincantes relacionam a participação a promessas religiosas. Os grupos diferem na maneira de tocar e organizar a apresentação, em modalidades conhecidas como sotaques.

Nas festas juninas, organizadores preparam quadrilhas e adaptam coreografias aos espaços disponíveis. Certos grupos ensaiam por meses e participam de concursos. Para conhecer uma festa, o pesquisador acompanha também o trabalho de quem prepara as roupas e combina as regras de participação.


Literatura de cordel e circulação de histórias

Os poetas de cordel compõem narrativas em versos e organizam as estrofes segundo formas poéticas aprendidas. Publicam histórias de aventura ou comentam acontecimentos de seu tempo. Leitores podem recitar esses versos em voz alta e compartilhar os folhetos com outras pessoas.

Autores e editores utilizam capas ilustradas, algumas produzidas por xilogravadores. Nessa técnica, o artista entalha uma matriz de madeira e imprime a imagem em papel. Os cordelistas também divulgam obras por meios digitais, mantendo relações entre a leitura e a apresentação oral.

Em 2018, o Iphan registrou a Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil. O reconhecimento abrange os conhecimentos dos poetas e as formas de transmitir essa prática, além da circulação dos impressos.

 

Artesanato e conhecimentos do cotidiano

Artesãos ensinam técnicas durante o trabalho em oficinas ou no ambiente doméstico. Quem aprende a modelar barro observa como preparar a matéria-prima e controlar a queima. Na produção de cestos, os participantes selecionam fibras e repetem trançados que podem receber variações pessoais.

Famílias também transmitem conhecimentos sobre o preparo de alimentos. Para fazer farinha de mandioca, os produtores dominam etapas de processamento e controlam o ponto da torra. O estudo dessas práticas inclui o trabalho compartilhado e os critérios usados pelos participantes para avaliar o resultado.


Crenças e respeito às comunidades

Pesquisadores do folclore podem estudar práticas ligadas à religiosidade, como pagamentos de promessas e bênçãos transmitidas entre gerações. Os praticantes atribuem sentidos sagrados a esses atos e definem quem pode realizá-los. Durante uma pesquisa, algumas pessoas autorizam o registro de uma celebração, enquanto outras restringem sua divulgação.

Os participantes de religiões indígenas e afro-brasileiras mantêm conhecimentos que seguem regras próprias de transmissão. Ao estudar essas experiências, é preciso ouvir seus detentores e distinguir uma apresentação pública de um ritual reservado. A classificação acadêmica de uma prática exige atenção às palavras com que as próprias comunidades a descrevem.

 



    Folclore Outros Temas