Quem foi
Alcântara Machado foi um escritor, jornalista e político brasileiro, nascido em São Paulo, em 1901, e falecido no Rio de Janeiro, em 1935. Ligado ao Modernismo brasileiro, destacou-se principalmente por retratar a vida urbana paulistana nas primeiras décadas do século XX, com atenção especial aos imigrantes italianos e seus descendentes. Sua escrita apresenta linguagem coloquial, frases curtas, humor, ironia e influência do jornalismo e do cinema. Entre suas obras mais conhecidas estão "Brás, Bexiga e Barra Funda", "Pathé-Baby" e "Laranja da China".
Biografia
Antônio de Alcântara Machado d’Oliveira nasceu em 25 de maio de 1901, na cidade de São Paulo. Filho de uma família tradicional paulista, cresceu em um ambiente ligado à vida intelectual e acadêmica. Seu pai, José de Alcântara Machado de Oliveira, foi jurista, professor da Faculdade de Direito de São Paulo e participante ativo da vida pública brasileira.
Após concluir os estudos básicos, Alcântara Machado ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, formando-se em 1924. Embora tivesse formação jurídica, não seguiu carreira de destaque na advocacia. Desde jovem demonstrou maior interesse pelo jornalismo, pela literatura e pelos debates culturais que ocorriam no Brasil durante as primeiras décadas do século XX.
Sua aproximação com o jornalismo foi decisiva para sua trajetória intelectual. Trabalhou como crítico teatral e colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles o "Jornal do Commercio". A atividade jornalística permitiu que acompanhasse de perto as transformações urbanas, sociais e culturais vividas por São Paulo, que crescia rapidamente em consequência da industrialização e da chegada de milhares de imigrantes.
Embora não tenha participado diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, Alcântara Machado aproximou-se posteriormente dos escritores modernistas e tornou-se um dos nomes importantes do movimento em São Paulo. Durante a década de 1920, participou de revistas culturais relacionadas ao Modernismo, como "Terra Roxa e Outras Terras" e "Revista de Antropofagia". Nesse ambiente, manteve contato com intelectuais como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros representantes da renovação artística brasileira.
A experiência de uma viagem à Europa, realizada em 1925, também teve importância em sua formação cultural. Durante o período em que esteve no continente europeu, enviou crônicas e registros de viagem para a imprensa brasileira. Ao retornar ao país, intensificou sua participação na vida literária e jornalística paulista, acompanhando tanto as novidades culturais europeias quanto as mudanças que ocorriam na sociedade brasileira.
No início da década de 1930, sua atuação ultrapassou o campo exclusivamente literário. Alcântara Machado envolveu-se na vida política e participou do contexto marcado pela Revolução Constitucionalista de 1932, movimento paulista que defendia a elaboração de uma nova Constituição para o Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. Posteriormente, filiou-se ao Partido Constitucionalista e foi eleito deputado federal por São Paulo em 1934.
Sua carreira política, entretanto, foi interrompida precocemente. Alcântara Machado morreu no Rio de Janeiro em 14 de abril de 1935, aos 33 anos, em decorrência de complicações após uma cirurgia. Sua morte ocorreu quando começava a ampliar sua atuação na política nacional e já possuía reconhecimento nos meios jornalísticos e literários.
Principais características de suas obras e do seu estilo literário:
• Retratou, em suas obras, o cotidiano dos imigrantes italianos, que viviam na cidade de São Paulo na segunda metade da década de 1920. Apresentou também diversos aspectos culturais e sociais da cidade de São Paulo nesse período.
• Usou expressões italianas misturadas com portuguesas, mostrando a mistura linguística e cultural dos italianos com os paulistanos.
• Algumas de suas obras são marcadas pelo estilo jornalístico, principalmente as crônicas.
• Usou estilo rebuscado e rompeu com muitas estruturas literárias tradicionais.
• Utilizou muitas experimentações em suas prosas, principalmente no uso de linguagem espontânea carregada de bom-humor.
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| Capa do livro Brás, Bexiga e Barra Funda: uma das principais obras de Alcântara Machado. |
Principais obras de Alcântara Machado:
"Pathé-Baby" (1926)
Resultado de sua viagem à Europa realizada em 1925, "Pathé-Baby" reúne crônicas de viagem nas quais Alcântara Machado registra cidades, costumes, paisagens e situações observadas no continente europeu. O texto apresenta linguagem ágil, fragmentada e marcada por imagens rápidas, próximas da montagem cinematográfica. O próprio título faz referência a uma pequena câmera de cinema bastante conhecida na época.
"Brás, Bexiga e Barra Funda" (1927)
Considerada sua obra mais conhecida, "Brás, Bexiga e Barra Funda" é uma coletânea de contos ambientados principalmente em bairros populares da cidade de São Paulo. O livro retrata o cotidiano de imigrantes italianos e seus descendentes, mostrando relações familiares, trabalho, futebol, namoro, conflitos sociais e o processo de integração desses grupos à sociedade paulista.
Uma característica importante da obra é a reprodução de elementos da fala cotidiana dos personagens, inclusive expressões influenciadas pelo italiano. Alcântara Machado também utiliza frases curtas, ritmo acelerado e recursos associados à linguagem jornalística e cinematográfica, procurando representar uma São Paulo em rápido processo de urbanização e modernização.
"Laranja da China" (1928)
Nessa coletânea de contos, o autor amplia sua observação da sociedade urbana paulistana. As narrativas apresentam personagens de diferentes grupos sociais e situações ligadas ao cotidiano, aos relacionamentos pessoais, às convenções sociais e às transformações provocadas pela vida moderna. O humor, a ironia e a linguagem coloquial aparecem com frequência.
Ao mesmo tempo, "Laranja da China" demonstra o interesse de Alcântara Machado por situações aparentemente comuns da vida urbana. Pequenos acontecimentos são utilizados para revelar comportamentos, conflitos e contradições da sociedade paulista das primeiras décadas do século XX.
"Mana Maria"
Publicado postumamente e deixado inacabado, "Mana Maria" é um romance no qual Alcântara Machado apresenta aspectos da vida familiar e social da elite tradicional de São Paulo. Diferentemente dos contos centrados principalmente nos bairros de imigrantes, o romance dirige maior atenção aos costumes e às relações existentes entre integrantes das famílias paulistas mais antigas.
A obra permite perceber outro lado da sociedade observada pelo escritor, marcado pelo contraste entre valores tradicionais e as rápidas mudanças sociais e culturais vividas por São Paulo. Como o autor morreu em 1935, o romance permaneceu incompleto.
"Cavaquinho e Saxofone"
Também publicado postumamente, "Cavaquinho e Saxofone" reúne crônicas e outros textos produzidos por Alcântara Machado para jornais e revistas. Os escritos tratam de temas culturais, sociais e cotidianos, revelando sua intensa atuação jornalística e seu interesse pelas transformações da sociedade brasileira.
O título simboliza, de certa maneira, o encontro entre elementos tradicionais e modernos. O cavaquinho remete à cultura musical brasileira, enquanto o saxofone estava associado às novidades culturais e musicais internacionais que ganhavam espaço nas grandes cidades durante as primeiras décadas do século XX.
Artigo publicado em 02/10/2019 e atualizado em 20/08/2026
Por Elaine Barbosa de Souza
Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Alc%C3%A2ntara_Machado
Vídeo indicado no YouTube:
Alcântara Machado: texto bom é eterno - Grupo Editorial Global