Conceito
O monetarismo é uma corrente do pensamento econômico que atribui à quantidade de moeda em circulação um papel central no funcionamento da economia. Seus defensores sustentam que variações excessivas na oferta de dinheiro podem provocar inflação, instabilidade dos preços e alterações temporárias na produção e no emprego. Por esse motivo, defendem uma política monetária estável, previsível e conduzida principalmente pelo banco central, com controle da expansão monetária, do crédito e das taxas de juros.
Essa corrente ganhou destaque a partir da segunda metade do século XX, sobretudo com os trabalhos de Milton Friedman e da Escola de Chicago. Os monetaristas criticam o uso frequente de gastos públicos e de intervenções estatais para estimular a economia, pois consideram que essas medidas podem produzir déficits, endividamento e inflação. No longo prazo, afirmam que o aumento da quantidade de moeda altera principalmente variáveis nominais, como preços e salários, sem elevar de forma permanente a produção real ou o nível de emprego.
Exemplos de economistas monetaristas:
Milton Friedman
Milton Friedman (1912–2006) foi o principal representante do monetarismo e um dos economistas mais influentes do século XX. Professor da Universidade de Chicago, retomou e reformulou a teoria quantitativa da moeda, segundo a qual alterações na quantidade de dinheiro em circulação afetam o nível geral dos preços e a atividade econômica.
Friedman defendia que a inflação persistente resulta, sobretudo, de um crescimento da oferta monetária superior ao crescimento da produção. Para evitar instabilidade, propôs que os bancos centrais mantivessem uma expansão moderada e previsível da quantidade de moeda, em vez de realizarem intervenções frequentes. Também criticou a ideia de que os governos poderiam reduzir permanentemente o desemprego por meio do aumento da inflação.
Anna Jacobson Schwartz
Anna Jacobson Schwartz (1915–2012) foi uma economista e historiadora econômica dos Estados Unidos. Tornou-se conhecida por seus estudos sobre moeda, bancos, crises financeiras e política monetária. Sua principal contribuição foi demonstrar, com base em ampla documentação histórica, como as decisões das autoridades monetárias influenciaram os ciclos econômicos.
Em parceria com Milton Friedman, publicou, em 1963, "A Monetary History of the United States, 1867–1960". Nessa obra, os autores argumentaram que a política do Federal Reserve agravou a Grande Depressão iniciada em 1929 ao permitir uma forte contração da quantidade de moeda e o colapso de numerosos bancos. O trabalho tornou-se uma referência da história monetária.
Karl Brunner
Karl Brunner (1916–1989) foi um economista suíço que desenvolveu grande parte de sua carreira nos Estados Unidos. É considerado responsável por difundir o termo monetarismo no vocabulário econômico durante a segunda metade do século XX. Seus estudos procuraram sistematizar os princípios teóricos dessa corrente.
Brunner destacou que as ações dos bancos centrais afetam a economia por diversos canais, como o crédito, os preços dos ativos e as decisões de consumo e investimento. Também criticou o excesso de confiança na capacidade das autoridades públicas de controlar detalhadamente a economia. Para ele, regras monetárias claras e instituições estáveis seriam mais eficientes do que políticas baseadas em decisões improvisadas.
Allan H. Meltzer
Allan H. Meltzer (1928–2017) foi um economista norte-americano ligado à Universidade Carnegie Mellon. Trabalhou em estreita colaboração com Karl Brunner e participou da formulação de uma abordagem monetarista centrada no funcionamento dos bancos, do crédito e dos mercados financeiros.
Meltzer defendia a adoção de uma âncora nominal, isto é, uma referência estável capaz de orientar as expectativas sobre preços e inflação. Criticava mudanças frequentes na política monetária e sustentava que os bancos centrais deveriam seguir regras transparentes e previsíveis. Também escreveu uma ampla história do Federal Reserve, analisando suas decisões desde sua criação, em 1913.
Phillip Cagan
Phillip Cagan (1927–2012) foi um economista norte-americano especializado em teoria monetária e inflação. Ficou conhecido por seus estudos sobre processos de hiperinflação, nos quais os preços aumentam de maneira extremamente rápida e a moeda perde grande parte de seu poder de compra.
Cagan demonstrou que as expectativas da população influenciam a procura por moeda. Quando as pessoas esperam uma inflação elevada, tendem a reduzir a quantidade de dinheiro que mantêm em mãos e procuram adquirir bens ou ativos mais estáveis. Esse comportamento pode acelerar ainda mais o aumento dos preços. Seus trabalhos ajudaram a compreender a relação entre oferta monetária, expectativas e inflação.
David Laidler
David Laidler (1938–2025) foi um economista britânico-canadense que contribuiu para o desenvolvimento e a divulgação do monetarismo, principalmente por meio de seus estudos sobre a demanda por moeda. Ele investigou os fatores que levam indivíduos e empresas a conservar parte de sua riqueza em forma monetária.
Laidler também analisou os mecanismos pelos quais as mudanças na quantidade de moeda afetam a renda nominal, a inflação, os juros e o balanço de pagamentos. Embora reconhecesse algumas limitações das versões mais rígidas do monetarismo, defendeu a importância da teoria quantitativa da moeda e da estabilidade monetária para o funcionamento da economia.
Características principais do monetarismo:
• Valorização das forças de mercado: os monetaristas consideram que a economia possui mecanismos espontâneos de ajuste, relacionados à oferta, à procura, aos preços e à concorrência. Por essa razão, defendem menor intervenção direta do Estado na atividade econômica.
• Importância da quantidade de moeda: o monetarismo atribui papel central ao volume de dinheiro disponível na economia. Alterações excessivas na oferta monetária podem provocar inflação, enquanto uma redução muito intensa pode contribuir para a retração da produção e do emprego no curto prazo.
• Inflação como fenômeno monetário: para os monetaristas, uma inflação elevada e persistente ocorre, principalmente, quando a quantidade de moeda cresce de forma mais rápida do que a produção de bens e serviços. Dessa forma, o controle da expansão monetária é considerado essencial para a estabilidade dos preços.
• Controle da expansão do crédito: o crescimento excessivo do crédito pode aumentar o consumo, os investimentos e a quantidade de dinheiro em circulação. Os monetaristas defendem que a expansão creditícia seja acompanhada pelas autoridades monetárias para evitar pressões inflacionárias e instabilidade financeira.
• Política monetária como principal instrumento econômico: essa corrente considera a política monetária mais eficaz do que a política fiscal para controlar a inflação e influenciar a atividade econômica. Sua aplicação ocorre por meio da administração da liquidez, das taxas de juros, dos depósitos compulsórios e das operações realizadas pelo banco central.
• Controle das taxas de juros: as autoridades monetárias podem elevar ou reduzir a taxa básica de juros para influenciar o consumo, o crédito, os investimentos e a inflação. No Brasil, essa referência é a taxa Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central.
• Elevação dos juros para combater a inflação: quando as taxas de juros aumentam, o crédito tende a ficar mais caro, reduzindo o consumo e os investimentos financiados. Essa diminuição da demanda pode contribuir para conter a elevação dos preços.
• Redução dos juros para estimular a economia: em períodos de baixo crescimento ou recessão, a diminuição das taxas de juros pode facilitar o acesso ao crédito, estimular o consumo e incentivar novos investimentos. Entretanto, os monetaristas alertam que estímulos prolongados podem produzir inflação.
• Neutralidade monetária no longo prazo: segundo o monetarismo, mudanças permanentes na quantidade de moeda afetam principalmente variáveis nominais, como preços, salários expressos em dinheiro e taxas de câmbio. No longo prazo, não seriam capazes de aumentar continuamente variáveis reais, como emprego, produção ou Produto Interno Bruto real.
• Efeitos monetários no curto prazo: embora a moeda seja considerada neutra no longo prazo, alterações na oferta monetária podem influenciar temporariamente a produção, o emprego e o consumo. Isso ocorre porque preços e salários não se ajustam imediatamente às novas condições econômicas.
• Descrença na eficácia duradoura da política fiscal: os monetaristas questionam o uso frequente do aumento dos gastos públicos ou da redução de impostos para estimular a economia. Essas medidas podem produzir efeitos limitados, aumentar o endividamento público e gerar inflação quando financiadas pela emissão de moeda.
• Disciplina dos gastos públicos: embora a redução das despesas governamentais não seja uma regra obrigatória do monetarismo, seus defensores costumam recomendar equilíbrio fiscal. Déficits públicos elevados podem pressionar os juros, aumentar a dívida e, quando financiados por expansão monetária, estimular a inflação.
• Defesa de regras monetárias estáveis: os monetaristas preferem políticas previsíveis em lugar de intervenções constantes e improvisadas. Milton Friedman, por exemplo, propôs que a oferta de moeda crescesse de maneira regular e compatível com o crescimento da economia.
• Crítica às políticas econômicas discricionárias: decisões tomadas para responder rapidamente a cada oscilação econômica podem produzir resultados contrários aos esperados. Isso ocorre porque existe um intervalo entre a identificação do problema, a adoção das medidas e o aparecimento de seus efeitos.
• Importância das defasagens temporais: as medidas de política monetária não produzem efeitos imediatos. Uma alteração nos juros ou na oferta de moeda pode levar meses para influenciar plenamente o crédito, o consumo, os investimentos, a produção e os preços.
• Estabilidade da demanda por moeda: os monetaristas sustentam que a procura por moeda apresenta certa regularidade e pode ser relacionada a fatores como renda, riqueza, juros e expectativas de inflação. Essa estabilidade permitiria prever alguns efeitos das mudanças na oferta monetária.
• Papel das expectativas econômicas: as decisões de consumidores, empresas e investidores dependem das expectativas sobre inflação, juros e crescimento. Quando a população espera uma inflação elevada, pode antecipar compras, exigir salários maiores e evitar conservar dinheiro, contribuindo para acelerar o aumento dos preços.
• Taxa natural de desemprego: o monetarismo afirma que existe um nível de desemprego relacionado às características estruturais do mercado de trabalho. Tentativas de manter o desemprego permanentemente abaixo desse nível por meio da expansão monetária tendem a provocar inflação crescente.
• Ausência de uma relação permanente entre inflação e desemprego: no curto prazo, políticas expansionistas podem reduzir temporariamente o desemprego. No longo prazo, porém, trabalhadores e empresas ajustam suas expectativas, fazendo com que o emprego retorne ao seu nível natural, enquanto a inflação permanece mais elevada.
• Independência e credibilidade do banco central: uma autoridade monetária capaz de tomar decisões técnicas e manter compromissos com a estabilidade dos preços tende a aumentar a confiança dos agentes econômicos. A credibilidade pode reduzir as expectativas inflacionárias e tornar a política monetária mais eficiente.
• Controle da moeda em circulação: as autoridades monetárias acompanham a moeda física, os depósitos bancários e outros ativos considerados meios de pagamento. Entretanto, o monetarismo não se baseia simplesmente no controle das moedas nacional e estrangeira, mas no acompanhamento dos agregados monetários e das condições gerais de liquidez.
• Atenção à taxa de câmbio: a entrada e a saída de moedas estrangeiras podem influenciar a oferta monetária, a inflação e os preços dos produtos importados. Ainda assim, a política cambial não constitui o elemento central do monetarismo, que se concentra principalmente na estabilidade da moeda nacional.
• Limitação da intervenção estatal: os monetaristas defendem que o Estado estabeleça regras, preserve a estabilidade monetária e garanta o funcionamento dos mercados. Em geral, rejeitam controles permanentes de preços, salários, produção e crédito, pois consideram que essas medidas distorcem os sinais econômicos.
• Prioridade ao controle da inflação: a estabilidade do poder de compra da moeda é considerada uma condição necessária para o crescimento econômico sustentável. Uma inflação elevada dificulta o planejamento, reduz o valor da renda e das economias e aumenta a incerteza nas decisões de investimento.
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O economista Milton Friedman: um dos principais nomes do monetarismo. |
Quais as principais críticas feitas ao monetarismo?
• Redução do papel do Estado: críticos argumentam que o monetarismo minimiza excessivamente a importância das políticas públicas e sociais, ao defender a diminuição dos gastos governamentais.
• Ênfase excessiva na moeda: o foco quase exclusivo no controle da oferta monetária desconsidera outros fatores importantes para o desenvolvimento econômico, como investimento público e estímulo à produção.
• Desconsideração do desemprego: ao priorizar o combate à inflação, o monetarismo tende a negligenciar os efeitos sociais, como o aumento do desemprego em momentos de políticas restritivas.
Importância histórica
Os economistas ajudaram a recolocar a moeda no centro das análises macroeconômicas, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980. Suas ideias ganharam força durante a elevada inflação da década de 1970, quando muitas políticas inspiradas pelo keynesianismo tradicional apresentavam dificuldades para explicar a combinação de inflação e desemprego.
O monetarismo influenciou a atuação de diversos bancos centrais, sobretudo no controle da inflação e na valorização de regras monetárias mais previsíveis. Mesmo que suas propostas não sejam aplicadas integralmente na atualidade, conceitos como credibilidade, expectativas, estabilidade dos preços e controle da expansão monetária continuam importantes para a política econômica.
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| Infográfico com as principais características do Monetarismo |
Publicado em 02/05/2020 e atualizado em 29/07/2026
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Fonte de referência:
SANDRONI, Paulo. Novíssimo Dicionário de Economia. São Paulo: Editora Best Seller, 1999.