História da África

A trajetória das sociedades africanas, das origens humanas aos reinos, à colonização e às independências.

Introdução

A História da África abrange a formação das primeiras populações humanas e as trajetórias das sociedades que ocuparam o continente. Inclui as experiências de povos que construíram Estados ou organizaram a vida política por meio de conselhos comunitários. Egípcios e núbios ocuparam o vale do Nilo, enquanto outros povos fundaram cidades no Sahel e no litoral do oceano Índico.

Ao longo de milênios, africanos estabeleceram redes comerciais e produziram conhecimentos transmitidos pela escrita ou pela oralidade. Nos últimos séculos, enfrentaram o tráfico atlântico de pessoas escravizadas e a conquista colonial europeia. Durante o século XX, movimentos africanos conquistaram independências e passaram a disputar os rumos dos novos países.

Diversidade regional e fontes históricas

As populações africanas viveram em ambientes com condições distintas para o cultivo e a circulação de pessoas. No Saara, comunidades mantiveram rotas entre o Mediterrâneo e o Sahel, faixa situada ao sul do deserto. Nas florestas da África Central, moradores combinaram a agricultura com o aproveitamento de recursos florestais. Na costa oriental, navegadores organizaram viagens conforme os ventos sazonais do Índico.

Historiadores estudam essas sociedades por meio de vestígios arqueológicos e documentos escritos. Também analisam narrativas orais, confrontando versões transmitidas entre gerações com outras evidências. Na África Ocidental, especialistas conhecidos como griôs preservaram genealogias e relatos sobre governantes. Cada fonte exige atenção às circunstâncias em que alguém a produziu e aos interesses de quem a transmitiu.

Os períodos chamados de Antiguidade e Idade Média seguem convenções construídas a partir da história europeia. Ao estudar a África, pesquisadores também usam cronologias regionais, como a expansão dos Estados do Sahel ou as fases de ocupação das cidades suaílis. Os acontecimentos seguiram ritmos próprios em cada região.

Origens humanas e primeiras formas de subsistência

Os ancestrais da humanidade viveram na África milhões de anos antes do surgimento da nossa espécie. Fósseis encontrados no continente permitem acompanhar mudanças na locomoção e na anatomia desses grupos. O Homo sapiens surgiu na África há cerca de 300 mil anos. Pesquisadores investigam sua formação a partir de populações que viveram em regiões distintas e mantiveram contatos entre si.

Grupos humanos caçavam animais e coletavam alimentos, adaptando suas técnicas aos ambientes que ocupavam. Com o tempo, algumas populações desenvolveram a agricultura e a criação de animais. Agricultores africanos domesticaram plantas como o sorgo e o milheto; em outras áreas, incorporaram espécies vindas de fora do continente. Essas mudanças ocorreram em épocas distintas e coexistiram com modos de vida baseados na caça e na coleta.

Egito e Núbia no vale do Nilo

Por volta de 3100 a.C., governantes reuniram o Alto e o Baixo Egito sob uma monarquia. Camponeses cultivavam as terras próximas ao Nilo, enquanto funcionários do faraó arrecadavam parte da produção. Escribas registravam tributos e decisões administrativas. Trabalhadores especializados participaram da construção de templos e monumentos funerários.

Ao sul do Egito, na região da Núbia, governantes organizaram Estados como Kerma e, depois, o Reino de Kush. Egípcios e núbios comerciaram entre si, mas também travaram guerras pelo controle de territórios e recursos. No século VIII a.C., reis kushitas conquistaram o Egito e governaram como faraós da XXV dinastia.

Em uma fase posterior da história kushita, os governantes instalaram sua capital em Meroé, no atual Sudão. Seus habitantes produziram objetos de ferro e utilizaram uma escrita própria, chamada meroítica. Os pesquisadores conhecem os sinais dessa escrita, mas ainda discutem o sentido de grande parte dos textos preservados.

Norte da África e conexões mediterrâneas

Povos amazigues, também conhecidos como berberes, habitaram extensas áreas do norte africano. Na costa, colonos fenícios fundaram entrepostos comerciais, entre eles Cartago, no território da atual Tunísia. Os cartagineses disputaram com Roma o controle de rotas marítimas. Após destruir Cartago em 146 a.C., os romanos ampliaram sua ocupação regional e exploraram a produção de cereais.

Durante o domínio romano, comunidades cristãs se estabeleceram em cidades norte-africanas. No século VII, exércitos árabes iniciaram conquistas que levaram o islamismo à região. A adoção da religião e da língua árabe ocorreu ao longo de gerações, com diferenças locais. Populações amazigues conservaram suas línguas e também fundaram dinastias muçulmanas, como a dos almorávidas.

Axum e os reinos do Chifre da África

Nos primeiros séculos da era cristã, os governantes de Axum controlaram territórios em partes das atuais Etiópia e Eritreia. Comerciantes ligados ao reino negociavam pelo mar Vermelho, em contato com a península Arábica e o Mediterrâneo. A monarquia cunhou moedas, e suas elites ergueram estelas de pedra para marcar sepultamentos.

No século IV, o rei Ezana adotou o cristianismo. Nos séculos seguintes, comunidades cristãs dos planaltos etíopes mantiveram tradições religiosas e produziram manuscritos em ge'ez. Nas áreas vizinhas, mercadores e governantes muçulmanos organizaram outros centros de poder. Cristãos e muçulmanos comerciaram entre si e também disputaram o controle de caminhos e tributos.

Expansão de povos de línguas bantas

Ao longo de vários milênios, populações que falavam línguas do grupo banto se deslocaram de áreas próximas à atual fronteira entre Nigéria e Camarões para regiões da África Central e Austral. Esses deslocamentos ocorreram por numerosas rotas, com interrupções e encontros entre populações. Os pesquisadores reconstituem o processo por meio da linguística e da arqueologia.

Parte desses grupos cultivava alimentos e criava animais; em fases posteriores, comunidades também difundiram técnicas de trabalho com o ferro. Ao ocupar novos territórios, estabeleceram relações com os moradores que já viviam ali. A palavra “banto” designa um agrupamento linguístico amplo: seus falantes formaram sociedades com instituições e costumes distintos.

Comércio transaariano e difusão do islamismo

Caravaneiros atravessavam o Saara com camelos, ligando centros comerciais do norte africano às cidades do Sahel. Transportavam ouro e sal, entre outras mercadorias. Governantes cobravam tributos sobre parte dessas trocas e protegiam trechos das rotas. Também circulavam pessoas escravizadas, negociadas em redes que atravessavam o deserto.

Mercadores e estudiosos muçulmanos difundiram o islamismo na África Ocidental. Alguns soberanos adotaram a religião e empregaram letrados que escreviam em árabe. Entre seus súditos, comunidades conservaram práticas religiosas locais ou as combinaram com costumes islâmicos. A adesão de uma corte ao islamismo podia anteceder em séculos a conversão de parcelas maiores da população.

Gana, Mali e Songhai

O antigo Reino de Gana, também chamado de Wagadu, se desenvolveu em áreas das atuais Mauritânia e Mali. Seus governantes arrecadavam tributos ligados ao comércio transaariano. Esse reino ocupava uma região distinta do território do país que hoje recebe o nome de Gana.

No século XIII, Sundiata Keita consolidou o poder do Mali. Os soberanos malineses controlaram territórios próximos ao rio Níger e acessos às zonas produtoras de ouro. Mansa Musa, um de seus governantes, realizou uma peregrinação a Meca em 1324, acompanhado por uma comitiva que distribuiu ouro durante a passagem pelo Cairo.

Songhai ampliou seus domínios no século XV, tendo Gao como centro político. Sob governantes como Askia Muhammad, funcionários administravam províncias e cobravam impostos. Em 1591, tropas enviadas pelo sultão do Marrocos derrotaram o exército songhai e enfraqueceram o poder imperial.

Nas cidades dessa região, professores mantinham círculos de estudo e famílias reuniam bibliotecas. Em Tombuctu, estudiosos copiavam textos de direito islâmico e escreviam sobre astronomia. Comerciantes negociavam livros, e alunos viajavam para estudar com mestres conhecidos.

Cidades suaílis e Grande Zimbábue

No litoral oriental, comunidades africanas desenvolveram cidades comerciais de cultura suaíli. A língua suaíli pertence ao grupo banto e incorporou vocabulário árabe durante séculos de contato. Mercadores de Kilwa e Mombaça negociavam com navegadores da Arábia e da Índia. Parte dos moradores adotou o islamismo, e construtores ergueram mesquitas e casas de pedra.

No interior da África Austral, populações ancestrais dos xona construíram Grande Zimbábue, que floresceu entre os séculos XI e XV. Seus construtores levantaram muralhas de pedra sem argamassa. As elites locais acumularam riqueza por meio da criação de gado e do comércio de ouro, negociado em redes que alcançavam a costa do Índico. Arqueólogos encontraram no local objetos importados da Ásia, como peças de porcelana.

Congo e formas de organização das sociedades africanas

Na África Centro-Ocidental, os governantes do Reino do Congo administravam províncias a partir de Mbanza Congo. No final do século XV, estabeleceram relações diplomáticas com os portugueses. Parte da elite adotou o catolicismo, e o rei Afonso I manteve correspondência com a monarquia portuguesa. Em suas cartas, denunciou a captura e a venda ilegal de súditos por traficantes.

Em outras regiões, moradores organizavam o poder sem uma monarquia centralizada. Conselhos de anciãos ou assembleias participavam das decisões coletivas. Entre comunidades igbos, no sudeste da atual Nigéria, existiram organizações políticas locais com combinações próprias de autoridade. As relações de parentesco também definiam direitos sobre a terra e deveres entre famílias.


• As autoridades podiam concentrar poder em uma corte ou compartilhá-lo entre conselhos. Dentro de uma mesma região, comunidades vizinhas adotavam arranjos distintos.

• Agricultores e artesãos sustentavam atividades que variavam conforme o ambiente. As diferenças de riqueza e posição social influenciavam o acesso à terra e ao trabalho de outras pessoas.

Tráfico atlântico e diáspora africana

A partir do século XV, navegadores portugueses ampliaram seus contatos com a costa atlântica africana. Nos séculos seguintes, traficantes europeus e americanos organizaram o transporte de pessoas escravizadas para as Américas. Compravam cativos de intermediários e de governantes africanos envolvidos em guerras ou expedições de captura. A participação desses agentes variava conforme a região e coexistia com a resistência das populações ameaçadas.

Segundo estimativas do projeto SlaveVoyages, cerca de 12,5 milhões de africanos foram embarcados à força no tráfico transatlântico; aproximadamente 10,7 milhões chegaram vivos aos destinos. Os traficantes submeteram os cativos à fome e a doenças durante a travessia. No Brasil, proprietários exploraram seu trabalho nos engenhos e nas minas, além de outras atividades.

Sociedades africanas já conheciam formas de escravidão antes dessa expansão. A demanda atlântica ampliou a escala das capturas e incentivou conflitos em áreas fornecedoras de cativos. Africanos escravizados reagiram com fugas e revoltas, formando também comunidades autônomas nas Américas. Ao lado de seus descendentes, recriaram práticas religiosas e conhecimentos transmitidos nas regiões de origem.

Conquista colonial e partilha da África

Durante o século XIX, governos europeus ampliaram suas conquistas africanas. A França invadiu a Argélia em 1830, enquanto os britânicos expandiram seus domínios em áreas do sul e do oeste do continente. Empresas e governos disputavam terras e matérias-primas. Defensores do imperialismo usavam teorias racistas para justificar a submissão dos africanos.

Na Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, representantes de potências estrangeiras negociaram regras para reconhecer reivindicações coloniais e garantir a navegação em rios africanos. Os povos atingidos ficaram sem representação própria nas decisões. Nas décadas seguintes, os colonizadores impuseram fronteiras por meio de conquistas militares e acordos entre seus governos.

As administrações coloniais expropriaram terras e cobraram impostos que obrigavam moradores a obter dinheiro em atividades controladas pelos colonizadores. Em vários territórios, autoridades impuseram trabalho forçado. No Estado Livre do Congo, sob domínio pessoal de Leopoldo II da Bélgica, agentes e tropas usaram violência para exigir a coleta de borracha. As condições de exploração variaram entre as colônias e ao longo do tempo.

Resistências à dominação estrangeira

Governantes e comunidades africanas enfrentaram a expansão europeia por meio de guerras e negociações. No século XVII, a rainha Nzinga, ligada aos reinos de Ndongo e Matamba, combateu os portugueses e firmou alianças para conservar seu poder. Na África Ocidental do século XIX, Samori Touré comandou forças que resistiram ao avanço francês.

Em 1896, o exército etíope comandado por Menelik II derrotou os italianos na Batalha de Adwa e preservou a independência do país. A Itália ocupou a Etiópia em outra guerra, entre 1935 e 1936, e manteve o domínio até 1941. Nas regiões colonizadas, trabalhadores também reagiram com greves e recusas ao pagamento de impostos.

Mulheres organizaram mobilizações contra autoridades coloniais e seus aliados locais. Na Nigéria, Funmilayo Ransome-Kuti atuou na União das Mulheres de Abeokuta, que enfrentou a tributação imposta às mulheres e os abusos de autoridades. Comerciantes participaram dos protestos e pressionaram pelo direito de intervir nas decisões públicas.

Nacionalismos e independências

Durante a primeira metade do século XX, intelectuais e organizações políticas difundiram o pan-africanismo, que defendia a solidariedade entre africanos e populações negras da diáspora. Sindicatos e associações estudantis ampliaram a oposição ao colonialismo. Após a Segunda Guerra Mundial, veteranos de guerra também passaram a exigir direitos e participação política.

Em 1957, Gana conquistou a independência sob a liderança de Kwame Nkrumah. Em 1960, dezessete países africanos se tornaram independentes. Os processos variaram: algumas lideranças negociaram a transferência de poder, enquanto outras participaram de guerras prolongadas. Na Argélia, a Frente de Libertação Nacional combateu o domínio francês até a independência, em 1962.

Nas colônias portuguesas, movimentos de libertação enfrentaram tropas enviadas pela ditadura de Portugal. A Guiné-Bissau proclamou sua independência em 1973, reconhecida pelo governo português no ano seguinte. Angola e Moçambique se tornaram independentes em 1975, após a Revolução dos Cravos derrubar a ditadura portuguesa e abrir negociações para encerrar as guerras coloniais.

Apartheid e democratização na África do Sul

Na África do Sul, colonizadores e seus descendentes haviam estabelecido restrições raciais antes do século XX. A partir de 1948, o governo do Partido Nacional ampliou essas restrições com o apartheid. As autoridades classificavam a população por critérios raciais e determinavam onde as pessoas poderiam morar. Também restringiam a circulação e excluíam a maioria negra do poder político nacional.

O Congresso Nacional Africano e outras organizações combateram o regime. Militantes enfrentaram prisões e massacres, enquanto trabalhadores organizaram greves. Após décadas de mobilização interna e pressão internacional, o governo iniciou negociações com os opositores. Em 1994, o país realizou eleições nacionais com participação da população adulta sem exclusão racial, e Nelson Mandela assumiu a Presidência.

Estados independentes e cooperação continental

Após as independências, governos africanos ampliaram sistemas de ensino e serviços de saúde, com resultados distintos entre os países. Herdaram economias que dependiam da exportação de poucos produtos e enfrentaram disputas pelo controle dos novos Estados. Durante a Guerra Fria, governos estrangeiros apoiaram aliados locais com armas e recursos. Angola viveu uma guerra civil prolongada, enquanto outros países seguiram trajetórias de maior estabilidade política.

Em 1963, governantes de países independentes fundaram a Organização da Unidade Africana, que apoiou a luta contra o colonialismo e o apartheid. Em 2002, os Estados lançaram a União Africana para ampliar a cooperação continental. Seus membros passaram a coordenar iniciativas de mediação de conflitos e integração entre economias.

As experiências políticas do período pós-colonial incluem ditaduras militares e disputas eleitorais com alternância de governantes. Cabo Verde realizou sua primeira eleição parlamentar multipartidária em 1991. Na Namíbia, a população conquistou a independência em 1990, após décadas de ocupação sul-africana e de luta conduzida pelo movimento de libertação local.

Relações históricas entre a África e o Brasil

Africanos desembarcados no Brasil vieram de regiões com línguas e costumes distintos. Entre eles estavam falantes de línguas bantas da África Centro-Ocidental e iorubás da África Ocidental. A origem regional dos cativos variou conforme a época e os portos ligados ao tráfico. No Brasil, essas populações formaram redes de solidariedade e transmitiram conhecimentos aos descendentes.

As relações também incluíram viagens de retorno. Durante o século XIX, libertos e seus familiares partiram do Brasil para cidades do golfo do Benim, onde constituíram comunidades conhecidas, em parte da região, como agudás. Alguns atuaram no comércio e na construção de casas, incorporando técnicas e referências arquitetônicas que haviam conhecido do outro lado do Atlântico.

Você sabia?

• No Reino do Benim, situado na atual Nigéria, artesãos produziram placas de latão com cenas da corte para decorar o palácio do oba, o soberano. Tropas britânicas saquearam essas peças durante a invasão de 1897, e muitas acabaram em museus europeus. O território desse reino ficava fora das fronteiras da atual República do Benim.

• Durante a ocupação italiana da Etiópia, os ocupantes retiraram uma estela de Axum e a levaram para Roma. A Itália devolveu o monumento em 2005, e técnicos o reergueram em seu local de origem em 2008.

 

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP).

Publicado em 02/11/2026



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