Filosofia Moderna

A Filosofia Moderna destacou a valorização da razão e da ciência como meios para compreender a realidade, questionando tradições e promovendo novas formas de pensar o conhecimento, a liberdade e a sociedade.

 

O que foi a Filosofia Moderna

A Filosofia Moderna foi o conjunto de investigações filosóficas desenvolvido, na periodização da tradição ocidental, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, com antecedentes no Renascimento e desdobramentos no início do século XIX. Seus autores examinaram como alcançar conhecimentos seguros e quais limites a razão humana encontra. Também discutiram a origem do poder político e os critérios da ação moral. Escreveram durante conflitos religiosos e a expansão colonial europeia, enquanto estudiosos reformulavam a astronomia e a física. Ao estudar esse período, é preciso acompanhar as diferenças entre os pensadores e os debates que mantiveram com as tradições anteriores.



O contexto histórico e os espaços de debate

Entre o final da Idade Média e o Renascimento, leitores europeus ampliaram o acesso a textos antigos e compararam manuscritos em suas línguas de origem. A imprensa favoreceu a circulação de livros, embora autoridades políticas e religiosas censurassem publicações. Os humanistas examinaram traduções e discutiram a formação intelectual por meio do estudo das letras.

A Reforma Protestante e as disputas entre confissões cristãs levaram os autores a questionar a autoridade religiosa e as condições da convivência entre crenças. Durante as guerras civis, pensadores perguntaram quem poderia exigir obediência e em quais circunstâncias seria legítimo resistir. O recurso à razão convivia com compromissos de fé, e muitos filósofos mantiveram Deus em suas explicações da realidade.

Os estudiosos atuavam nas universidades e também em redes de correspondência. Frequentavam academias científicas ou dependiam do apoio de patronos. As mulheres enfrentavam restrições ao ensino formal, mas participaram dos debates por meio de livros e cartas. Esses ambientes ofereciam oportunidades desiguais para publicar e responder a críticas.



O Renascimento e a investigação da vida humana

Os humanistas renascentistas estudaram a história e os textos da Antiguidade, com atenção à maneira como os autores empregavam a linguagem. Ao comparar versões de uma obra, podiam questionar leituras aceitas durante séculos. Também discutiram a educação e a capacidade humana de orientar a própria vida.

Michel de Montaigne, em "Ensaios", examinou os próprios juízos e a variedade dos costumes. Ao escrever sobre povos americanos, questionou os critérios pelos quais os europeus classificavam outras sociedades. Suas reflexões sobre a incerteza levaram os leitores a avaliar quanto de suas convicções dependia do hábito e da posição de quem julgava.



Maquiavel e a análise do poder

Nicolau Maquiavel viveu em Florença entre 1469 e 1527, em meio a disputas pelo governo e intervenções estrangeiras na península Itálica. Em "O príncipe", analisou como os governantes conquistavam e conservavam o poder. Recorreu à experiência política e à história para examinar decisões tomadas diante de conflitos.

Ao discutir a virtù, tratou da capacidade de agir com discernimento e adaptar a conduta às circunstâncias. Pela fortuna, examinou a parcela dos acontecimentos que escapa ao domínio humano. Um governante precisa decidir diante de situações que não controla por completo. Maquiavel também escreveu os "Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio", nos quais investigou instituições republicanas e os conflitos entre grupos da cidade.



A ciência moderna e o problema do método

Nicolau Copérnico propôs um modelo no qual a Terra se move ao redor do Sol. Galileu articulou observações e raciocínios matemáticos para estudar os fenômenos naturais. Isaac Newton formulou leis do movimento e da gravitação que permitiram tratar fenômenos terrestres e celestes dentro de uma mesma explicação física.

Os filósofos acompanharam essas pesquisas e perguntaram como distinguir uma explicação bem sustentada de uma conjectura. Discutiram o valor das experiências e o papel da matemática. A expressão filosofia natural ainda designava investigações que seriam distribuídas entre ciências especializadas nos séculos seguintes.

Entre as questões discutidas pelos autores modernos, destacavam-se:

• Como justificar o conhecimento? Um investigador precisava avaliar o alcance dos sentidos e os critérios pelos quais aceitava um raciocínio.

• Como examinar uma hipótese sobre a natureza? Os estudiosos comparavam suas explicações com observações e discutiam quais procedimentos permitiam testar o que propunham.



Francis Bacon e a investigação da natureza

Francis Bacon nasceu em 1561 e morreu em 1626. Em "Novum Organum", propôs reformar a investigação da natureza por meio da coleta organizada de experiências e da comparação entre casos. Criticou a aceitação de conclusões apoiadas apenas no prestígio de uma autoridade.

Bacon chamou de ídolos certos obstáculos ao entendimento, associados a hábitos humanos e a usos da linguagem. Uma pessoa pode valorizar apenas os exemplos que confirmam sua crença e desprezar os que a contrariam. Para enfrentar essas dificuldades, o investigador deveria registrar ocorrências e examinar também ausências do fenômeno estudado.

Sua proposta de indução envolvia eliminar explicações inadequadas com base na comparação de evidências. Ao estudar o calor, por exemplo, o pesquisador precisaria considerar circunstâncias nas quais ele aparece e outras em que está ausente. Bacon relacionou o estudo da natureza à capacidade de produzir conhecimentos que orientassem intervenções humanas.



Descartes e a dúvida metódica

René Descartes, que viveu entre 1596 e 1650, procurou estabelecer um ponto de partida seguro para o conhecimento. Em "Meditações sobre filosofia primeira", submeteu suas crenças à dúvida, considerando os enganos dos sentidos e a dificuldade de distinguir certas experiências de sonhos. Empregou a dúvida como procedimento para examinar aquilo que poderia resistir ao questionamento.

Ao duvidar, reconheceu que precisava existir como ser pensante enquanto realizava esse ato. Os leitores conhecem esse ponto de partida como cogito, associado à formulação penso, logo existo. A certeza envolve o próprio ato de pensar, antes da reconstrução dos argumentos sobre a realidade exterior.

Em "Discurso do método", Descartes recomendou aceitar apenas o que se apresentasse com evidência e dividir dificuldades em partes. Também orientou o raciocínio do mais simples ao mais complexo e exigiu revisões para evitar omissões. A ordem das razões deveria permitir ao investigador acompanhar por que aceitava cada conclusão.

Descartes precisou então discutir como passar da certeza do pensamento ao conhecimento de outras coisas. Em seu sistema, os argumentos sobre Deus participam da justificação da confiança nas percepções claras e distintas. Seus críticos contestaram tanto esses argumentos quanto a relação entre as etapas da investigação.



Mente, corpo e as objeções de Elisabeth da Boêmia

Descartes distinguiu a mente, caracterizada pelo pensamento, do corpo, caracterizado pela extensão no espaço. Essa posição recebeu o nome de dualismo. Para explicar a experiência humana, também precisava dar conta da união entre ambos: sentimos dor e movemos o corpo quando decidimos agir.

Nas cartas que começou a trocar com Descartes em 1643, Elisabeth da Boêmia perguntou como uma mente imaterial poderia produzir movimento em um corpo. A questão exigia esclarecer a interação entre realidades que o filósofo havia distinguido. Sua participação na correspondência envolveu objeções filosóficas e discussões sobre a conduta humana.

Outros autores propuseram explicações distintas para a natureza. Margaret Cavendish defendeu uma matéria dotada de movimento e criticou explicações que tratavam os corpos como passivos. Em "Observações sobre filosofia experimental", de 1666, examinou os limites das observações feitas com instrumentos e discutiu o papel do raciocínio na interpretação dos fenômenos.



Espinosa e Leibniz

Baruch Espinosa nasceu em 1632 e morreu em 1677. Em "Ética", sustentou a existência de uma única substância infinita, que designou como Deus ou Natureza. Os seres particulares dependem dessa realidade, e os acontecimentos seguem uma ordem necessária. Os intérpretes chamam de monismo essa explicação pela unidade da substância.

Ao investigar os afetos, Espinosa perguntou por que agimos sob a influência de causas que conhecemos de maneira insuficiente. A liberdade envolve ampliar o entendimento dessas causas e a capacidade de agir pela razão. Quem examina os motivos de sua raiva pode reconhecer como foi afetado e avaliar sua resposta, em vez de se imaginar livre apenas por sentir que escolheu.

Gottfried Wilhelm Leibniz, que viveu entre 1646 e 1716, propôs uma metafísica baseada em mônadas, substâncias simples sem partes. Também empregou o princípio de razão suficiente, segundo o qual deve haver uma razão para que algo seja assim em vez de ser de outro modo. Ao discutir a relação entre mente e corpo, defendeu uma harmonia preestabelecida por Deus entre suas séries de acontecimentos.



Racionalismo e empirismo

Os historiadores costumam reunir Descartes e seus interlocutores racionalistas em debates nos quais a razão pode fornecer conhecimentos que ultrapassam a experiência sensível. Para esses autores, o investigador precisa examinar os princípios e os procedimentos pelos quais alcança uma conclusão.

Os pensadores classificados como empiristas atribuem à experiência um papel decisivo na origem das ideias e na justificação de conhecimentos. Essa divisão organiza parte da história da epistemologia, área que investiga o conhecimento. Os autores classificados em uma mesma corrente, porém, divergiram sobre a existência da matéria e sobre a natureza da mente.

A comparação pode partir de um exemplo: observar muitas barras de metal que se dilatam ao aquecer permite registrar uma regularidade. Afirmar que isso ocorrerá em todos os casos exige discutir o caminho entre as observações e a regra geral. Os filósofos modernos avaliaram o que podemos concluir quando ultrapassamos aquilo que já experimentamos.



Locke e Berkeley

John Locke nasceu em 1632 e morreu em 1704. Em "Ensaio sobre o entendimento humano", recusou a tese de princípios inatos e defendeu que nossas ideias provêm da sensação ou da reflexão sobre as operações da mente. Ao perceber um objeto, recebemos ideias pelos sentidos; ao examinar uma lembrança ou uma decisão, voltamos a atenção para atividades do próprio entendimento.

Locke também investigou os limites do que conhecemos. Podemos usar conceitos e formular juízos sem ter acesso completo à constituição das coisas. Seu leitor precisa distinguir o conhecimento que o autor considera seguro das opiniões que aceitamos com graus de probabilidade.

George Berkeley, que viveu entre 1685 e 1753, criticou a ideia de uma substância material existente fora de toda percepção. Sustentou que os objetos sensíveis são conjuntos de ideias percebidas por espíritos. A estabilidade da experiência depende, em seu sistema, da ação de Deus. Ao discutir uma árvore que ninguém observa naquele momento, Berkeley a situa em uma realidade que permanece conhecida por Deus.



Hume e os limites da certeza

David Hume nasceu em 1711 e morreu em 1776. Distinguiu as impressões, experiências vivas que temos ao sentir ou perceber, das ideias, que retomam esses conteúdos com menor vivacidade. Empregou essa distinção para examinar de onde vêm nossos conceitos e como os utilizamos.

Ao estudar a causalidade, perguntou o que conhecemos quando afirmamos que um acontecimento produz outro. Observamos uma sequência repetida e passamos a esperar sua continuidade. Ao ver uma bola atingir outra e esta se mover, associamos os eventos, mas precisamos justificar a conexão necessária que atribuímos a eles.

Hume relacionou essas expectativas ao hábito e questionou a possibilidade de provar que o futuro repetirá o passado. Os seres humanos continuam a agir com base na experiência, mesmo diante dessa dificuldade filosófica. Na moral, também discutiu o papel dos sentimentos e da simpatia nos juízos pelos quais aprovamos ou condenamos condutas.



Hobbes e o contrato político

Thomas Hobbes viveu entre 1588 e 1679 e escreveu durante conflitos que incluíram a Guerra Civil Inglesa. Em "Leviatã", examinou por que as pessoas deveriam reconhecer um poder comum capaz de exigir obediência. Recorreu ao estado de natureza, uma construção teórica sobre a condição humana na ausência dessa autoridade.

Nessa condição, a insegurança decorre da possibilidade de ataque e da falta de garantias de que os acordos serão cumpridos. Os indivíduos instituem um soberano para assegurar a paz. Hobbes defendeu uma autoridade extensa, que poderia caber a um monarca ou a uma assembleia, e relacionou a obrigação de obedecer à proteção oferecida pelo poder político.

O contrato hobbesiano exige examinar o problema de confiar na promessa alheia quando ninguém pode garantir seu cumprimento. A discussão envolve as condições para que pessoas que temem umas às outras consigam viver sob regras comuns.



Os direitos e os limites do governo em Locke

Em "Dois tratados sobre o governo", Locke defendeu que os seres humanos possuem direitos anteriores à instituição do poder político. O governo depende do consentimento e deve proteger a vida e a liberdade, assim como os bens de seus membros. A comunidade confia poderes aos governantes sob condições que limitam seu exercício.

Quando um governo viola essa confiança e age de maneira arbitrária, os governados podem resistir e substituí-lo. Locke também discutiu a propriedade a partir do trabalho pelo qual alguém se apropria de recursos. Suas teses sobre os direitos conviveram com vínculos do autor com o colonialismo inglês e com justificativas restritas de escravidão, examinadas pelos intérpretes ao avaliar o alcance de sua defesa da liberdade.



Rousseau e a soberania popular

Jean-Jacques Rousseau nasceu em 1712 e morreu em 1778. No "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens", examinou como a propriedade e a dependência entre pessoas participaram da formação das desigualdades. Empregou uma reconstrução conjectural da história humana para discutir instituições e costumes.

Em "Do contrato social", de 1762, perguntou como formar uma associação na qual as pessoas permaneçam livres ao obedecer às leis. Defendeu que a soberania pertence ao povo e que a lei deve expressar a vontade geral, orientada para o interesse comum. A soma de preferências particulares pode divergir dessa orientação.

Uma decisão que favoreça apenas um grupo exige ser examinada à luz de seus efeitos para a comunidade. Para Rousseau, o povo soberano estabelece as leis, enquanto o governo exerce funções de execução. Seus leitores discutiram as condições em que se pode reconhecer a vontade geral e os riscos de alguém reivindicar essa autoridade em nome de todos.



O Iluminismo e a crítica das instituições

No século XVIII, autores associados ao Iluminismo defenderam o exame público de crenças e instituições. Publicaram obras sobre educação e tolerância religiosa, entre outros assuntos. Divergiam em suas propostas políticas e no valor que atribuíam à religião, embora compartilhassem a disposição de submeter autoridades a críticas.

Montesquieu, em "O espírito das leis", de 1748, investigou as relações entre leis e formas de governo. Ao discutir a liberdade política, defendeu uma distribuição de poderes capaz de conter abusos. Sua análise envolvia o equilíbrio entre autoridades e a possibilidade de limitar quem exerce o poder.

Voltaire combateu a intolerância e denunciou perseguições religiosas. Denis Diderot e Jean le Rond d'Alembert participaram da organização da "Enciclopédia", que reuniu conhecimentos e circulou sob conflitos com a censura. Os autores e colaboradores discutiram a autoridade do saber em uma sociedade na qual a Igreja e a monarquia regulavam publicações.



A igualdade e as exclusões da sociedade moderna

As propostas de liberdade coexistiram com a escravidão atlântica e com a dominação colonial. Os autores modernos divergiram sobre esses temas, e alguns formularam hierarquias entre povos. Ao examinar suas teorias, os historiadores perguntam a quem se aplicavam os direitos defendidos e como seus argumentos justificavam ou contestavam exclusões.

Mary Wollstonecraft, em "Reivindicação dos direitos da mulher", publicada em 1792, criticou a educação que preparava as mulheres para depender da aprovação masculina. Defendeu uma formação que lhes permitisse desenvolver a razão e agir com autonomia. Ao questionar a diferença de tratamento entre os sexos, enfrentou limites presentes nas propostas de igualdade de seu tempo.



Kant e as condições do conhecimento

Immanuel Kant nasceu em 1724 e morreu em 1804. Em "Crítica da razão pura", cuja primeira edição saiu em 1781, examinou como o conhecimento é possível e quais limites precisamos reconhecer. Sustentou que o conhecimento começa com a experiência, embora nem todos os seus elementos provenham dela.

Para Kant, o sujeito recebe dados pela sensibilidade e os pensa por meio do entendimento. Espaço e tempo são formas pelas quais percebemos; as categorias organizam o que podemos conhecer como experiência de objetos. Ao investigar essas condições, o filósofo perguntou o que o próprio sujeito fornece para que haja conhecimento.

Kant chamou de fenômenos os objetos tal como podemos conhecê-los sob essas condições. Distinguiu-os das coisas consideradas em si mesmas, para além do modo humano de conhecer. Sua crítica restringiu as pretensões de obter conhecimento teórico sobre Deus ou a imortalidade da alma, temas que ele retomou em sua filosofia prática.



A ética kantiana e a autonomia

Na "Fundamentação da metafísica dos costumes", Kant investigou o princípio da obrigação moral. Relacionou a autonomia à capacidade racional de reconhecer a lei que deve orientar a própria vontade. O valor moral de uma ação depende de agir por dever, segundo um princípio que possa valer para qualquer ser racional.

Uma formulação do imperativo categórico exige agir por uma máxima que possamos querer como lei universal. Se alguém pretende fazer uma promessa com intenção de descumpri-la, deve perguntar se pode querer que todos adotem essa regra. Kant argumenta que a universalização destruiria a confiança da qual a própria prática de prometer depende.

Outra formulação exige tratar a humanidade, em si e nos outros, sempre como fim e nunca apenas como meio. Ao decidir sobre outra pessoa, precisamos reconhecer sua capacidade de orientar a própria vida. Na discussão do esclarecimento, Kant também defendeu a liberdade de fazer uso público da razão e de submeter argumentos ao exame dos leitores.



As fronteiras entre a Filosofia Moderna e a Contemporânea

Os historiadores adotam limites distintos para encerrar a Filosofia Moderna. Alguns concentram o período em autores dos séculos XVII e XVIII; outros incluem o Renascimento e parte do idealismo alemão. Kant ocupa uma posição de passagem, pois seus sucessores retomaram a crítica do conhecimento e a discussão da liberdade.

No início do século XIX, pensadores como Hegel examinaram a formação histórica da consciência e das instituições. Autores posteriores também questionaram o indivíduo e os critérios de racionalidade discutidos pelos modernos. Nas universidades, os leitores continuaram a estudar o contrato social e o problema da causalidade em debates que atravessaram essa divisão cronológica.

 

 


 

 

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