Arte da Idade Moderna

A Arte da Idade Moderna foi marcada pela valorização da razão, da ciência e da expressão individual, refletindo as profundas transformações culturais e sociais ocorridas entre os séculos XV e XVIII.

 

Introdução

A arte da Idade Moderna compreende a produção artística realizada entre os séculos XV e XVIII, segundo a periodização usada no estudo da História europeia. Durante esses séculos, artistas retomaram modelos da Antiguidade e desenvolveram novas maneiras de construir imagens. Pintores estudaram o corpo humano e os efeitos da luz; arquitetos projetaram igrejas e palácios para compradores que definiam parte das escolhas de suas oficinas.

As origens do Renascimento remontam ao século XIV, ainda na Idade Média. Na outra extremidade dessa trajetória, artistas neoclássicos continuaram trabalhando no século XIX, quando também se desenvolveram o Romantismo e o Realismo. Por isso, o percurso apresentado aqui atravessa os limites da Idade Moderna e alcança a Idade Contemporânea. A expressão Arte Moderna, usada na História da Arte para experiências iniciadas no século XIX, possui um sentido distinto da expressão arte da Idade Moderna.

Os movimentos abordados nasceram em sociedades europeias e circularam por outros territórios, onde artistas os adaptaram a encomendas e tradições locais. Na América portuguesa, por exemplo, oficinas produziram igrejas com soluções barrocas e rococós. Esses estilos conviveram durante décadas, e seus limites variaram conforme a região.



Renascimento

O Renascimento começou em cidades italianas, com antecedentes no século XIV, e se difundiu pela Europa nos dois séculos seguintes. Mercadores e autoridades religiosas financiaram parte dessa produção. Em Florença, membros da família Médici encomendaram obras e apoiaram estudiosos; em Roma, papas contrataram artistas para decorar seus espaços de poder. Os humanistas estudavam textos gregos e latinos, enquanto pintores e escultores examinavam vestígios materiais da Antiguidade.

Os artistas associaram essas referências à observação da natureza. No século XV, Filippo Brunelleschi realizou experiências com a perspectiva linear, depois sistematizada por Leon Battista Alberti. Com esse procedimento, o pintor organiza a profundidade a partir de um ponto de observação e utiliza linhas que convergem para pontos de fuga. Escultores estudaram a distribuição do peso nos corpos; arquitetos adaptaram colunas e arcos de modelos antigos.

Leonardo da Vinci empregou transições suaves de tonalidade na "Mona Lisa", recurso conhecido como sfumato. Michelangelo explorou a anatomia no "Davi" e pintou a abóbada da Capela Sistina por encomenda do papa Júlio II. Em "A Escola de Atenas", Rafael reuniu filósofos antigos em um ambiente arquitetônico construído com perspectiva. Apesar do interesse por assuntos clássicos, os artistas continuaram recebendo numerosas encomendas de temas cristãos.

Ao norte dos Alpes, pintores combinaram contatos com a Itália e conhecimentos de suas próprias oficinas. Jan van Eyck aperfeiçoou o uso da tinta a óleo para trabalhar reflexos e texturas. Albrecht Dürer estudou proporções e fez gravuras que circularam entre compradores de várias cidades. Algumas características recorrentes dessas experiências foram:

• Estudo de modelos antigos e das proporções humanas, com atenção aos movimentos do corpo.

• Construção de profundidade e volume por meio da perspectiva ou de gradações de luz.



Maneirismo

Durante o século XVI, sobretudo a partir da década de 1520, artistas que os historiadores associam ao Maneirismo elaboraram composições com relações espaciais incomuns. Eles conheciam obras de mestres renascentistas e exploravam a dificuldade técnica das poses. Em cortes italianas e em outros centros europeus, compradores apreciavam figuras de gestos calculados e cenas que exigiam observação demorada.

Em "A Madona do pescoço longo", executada entre 1534 e 1540, Parmigianino alongou o corpo de Maria e reuniu anjos em um dos lados da composição. O artista deixou a pintura inacabada ao morrer. Pontormo também dispôs corpos em posições instáveis, enquanto Bronzino produziu retratos de corte com superfícies polidas e expressões contidas. El Greco, atuante em Toledo, desenvolveu uma linguagem própria que os estudiosos relacionam a experiências maneiristas. Entre os procedimentos associados ao movimento estão:

• Alongamento das figuras e elaboração de posturas com torções difíceis de executar.

• Distribuição assimétrica dos personagens e uso de relações de escala que tornam o espaço ambíguo.



Barroco

Artistas barrocos trabalharam desde o final do século XVI e ao longo dos séculos XVII e XVIII, com diferenças de duração entre regiões. Na Roma católica, papas e ordens religiosas financiaram obras para igrejas e praças. Após as disputas da Reforma Protestante, autoridades católicas reforçaram o uso de imagens no ensino da fé. Monarcas também contrataram artistas para exibir sua autoridade em retratos e residências.

Caravaggio construiu cenas religiosas com personagens de aparência cotidiana e contrastes acentuados entre áreas claras e escuras. Em "A vocação de São Mateus", dirigiu a luz para o encontro de Cristo com o futuro apóstolo. Artemisia Gentileschi pintou ações de tensão física em "Judite decapitando Holofernes". Gian Lorenzo Bernini reuniu escultura e arquitetura no "Êxtase de Santa Teresa", instalado na Capela Cornaro, em Roma, onde utilizou uma fonte de iluminação oculta.

As condições de trabalho mudavam entre territórios. Diego Velázquez pintou "As meninas" na corte espanhola. Na República Holandesa, compradores urbanos encomendaram retratos coletivos e cenas domésticas. Rembrandt trabalhou para esse mercado e explorou a iluminação dos rostos. Na América portuguesa, irmandades religiosas contrataram oficinas para construir e decorar templos; Aleijadinho participou dessa produção em Minas Gerais, onde executou esculturas com auxiliares.

Os artistas combinaram essas escolhas com tradições locais. Mesmo em cidades próximas, uma igreja podia receber decoração mais contida que outra, conforme os recursos dos contratantes. Na pintura e nos interiores religiosos, os profissionais empregaram procedimentos como:

• Uso de diagonais e gestos intensos para conduzir o olhar pela cena.

• Exploração da luz e de efeitos de profundidade, inclusive em tetos que parecem abertos para o céu.



Rococó

O Rococó ganhou espaço na França nas primeiras décadas do século XVIII, sobretudo na decoração de residências aristocráticas. Compradores encomendaram ambientes de convivência com ornamentos curvos e cores claras. Artesãos coordenavam o desenho dos móveis com os revestimentos das paredes. Na pintura, artistas exploraram encontros amorosos e momentos de lazer, muitas vezes ambientados em jardins.

Antoine Watteau pintou grupos de personagens envolvidos em conversas e aproximações afetivas. François Boucher trabalhou temas mitológicos para clientes da corte francesa. Jean-Honoré Fragonard criou "O balanço", em que uma jovem aparece entre a vegetação de um jardim. Em territórios de língua alemã e na América portuguesa, artistas também adotaram formas rococós em igrejas. Manuel da Costa Ataíde empregou recursos dessa linguagem na pintura do teto da nave da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Entre as características recorrentes estavam:

• Ornamentação assimétrica com curvas e motivos inspirados em conchas.

• Uso de tons claros e de efeitos de leveza, tanto em cenas de lazer quanto em decorações religiosas.



Neoclassicismo

A partir de meados do século XVIII, artistas neoclássicos estudaram obras gregas e romanas com apoio de publicações arqueológicas. Escavações em Herculano e Pompeia colocaram novos vestígios à disposição dos estudiosos. Johann Joachim Winckelmann defendeu a adoção de modelos gregos, enquanto viajantes do Grand Tour visitavam coleções na Itália. Professores das academias incentivavam o desenho e a cópia de esculturas antigas.

Jacques-Louis David pintou "O juramento dos Horácios", em 1784, antes da Revolução Francesa. Ao organizar os personagens diante de arcos romanos, tratou do dever cívico e do sacrifício individual. Mais tarde, o pintor participou da política revolucionária e trabalhou para Napoleão Bonaparte. Antonio Canova esculpiu figuras mitológicas em mármore, como "Psique reanimada pelo beijo do Amor", com superfícies polidas e gestos calculados.

No Brasil, professores ligados à tradição acadêmica francesa difundiram procedimentos neoclássicos no século XIX. A chegada do grupo conhecido como Missão Artística Francesa, em 1816, antecedeu a abertura da Academia Imperial de Belas Artes, dez anos depois. Grandjean de Montigny atuou no ensino da arquitetura, e Jean-Baptiste Debret participou da formação de pintores. Entre as escolhas formais difundidas pelo movimento estavam:

• Contornos definidos e organização equilibrada das figuras, com atenção ao desenho.

• Adaptação de temas antigos e de elementos arquitetônicos clássicos, como colunas e frontões.



Romantismo

O Romantismo se desenvolveu entre o final do século XVIII e a primeira metade do XIX. Seus artistas trabalharam durante as guerras napoleônicas e as revoluções que disputaram o poder na Europa. Muitos pintores valorizaram a experiência individual e os conflitos políticos. Outros recorreram a episódios medievais ou imaginaram paisagens nas quais o ser humano enfrenta forças naturais que escapam ao seu controle.

Em "A Liberdade guiando o povo", de 1830, Eugène Delacroix associou uma figura alegórica a combatentes das jornadas revolucionárias de Paris. Théodore Géricault pintou "A balsa da Medusa" a partir de um naufrágio e dos relatos de sobreviventes. Na paisagem, Caspar David Friedrich criou cenas de contemplação diante da natureza; J. M. W. Turner explorou a dissolução dos contornos em efeitos atmosféricos. Os artistas chamados românticos mantiveram diferenças de técnica e de posição política.

No Brasil imperial, pintores aproximaram temas históricos de debates sobre a formação nacional. Victor Meirelles realizou "Moema", recorrendo a uma personagem indígena de tradição literária. O artista seguiu convenções acadêmicas e tratou a morte da personagem com idealização romântica. Nas imagens indianistas, pintores projetaram valores do Império sobre figuras indígenas, enquanto povos indígenas enfrentavam disputas por suas terras. Entre os recursos encontrados em obras românticas estavam:

• Intensificação das emoções por meio da cor e dos gestos dos personagens.

• Interesse por acontecimentos dramáticos ou por paisagens associadas à experiência do sublime, marcada por admiração e temor.



Realismo

O Realismo ganhou força na França em meados do século XIX, durante a industrialização e as disputas políticas em torno da Revolução de 1848. Pintores voltaram sua atenção para trabalhadores e situações do cotidiano. Ao escolher esses assuntos para obras de grandes dimensões, enfrentaram critérios acadêmicos que atribuíam maior prestígio às cenas históricas e mitológicas. A palavra realismo designa aqui um movimento situado no tempo; artistas de outras épocas também haviam observado a vida comum.

Gustave Courbet pintou "Enterro em Ornans" e "Os quebradores de pedras", dando amplo espaço a pessoas de sua região. Jean-François Millet trabalhou cenas camponesas, como "As respigadoras", em que mulheres recolhem espigas deixadas no campo após a colheita. Honoré Daumier abordou a vida urbana e as desigualdades em pinturas e gravuras. Esses artistas selecionavam enquadramentos e organizavam as figuras conforme suas escolhas, mesmo quando defendiam a observação do mundo contemporâneo.

No Brasil, Almeida Júnior pintou cenas do interior paulista, entre elas "Caipira picando fumo" e "O violeiro". Sua formação acadêmica conviveu com o interesse por atividades cotidianas e personagens rurais, que os historiadores relacionam a tendências realistas. Em sua trajetória, o artista manteve o desenho aprendido na academia e escolheu trabalhadores como protagonistas de parte de suas telas. Entre as características recorrentes do Realismo estavam:

• Observação de atividades comuns e das condições de vida dos trabalhadores.

• Tratamento de pessoas contemporâneas em formatos antes reservados a episódios heroicos ou religiosos.

 

 



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