O que são as correntes sociológicas?
As correntes da Sociologia são formas de interpretação da sociedade que organizam conceitos, métodos e explicações sobre a vida social. Elas surgiram para compreender como os indivíduos vivem em grupo, como as instituições funcionam, como as desigualdades são produzidas e como as mudanças históricas transformam as relações sociais.
A Sociologia consolidou-se como ciência no século XIX, em um contexto marcado pela Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século XVIII, pela Revolução Francesa de 1789 e pelas grandes transformações políticas, econômicas e culturais da modernidade. A urbanização acelerada, o crescimento das fábricas, os conflitos entre classes sociais, a secularização do pensamento e a crise das antigas estruturas aristocráticas criaram novas questões sobre a ordem social.
Cada corrente sociológica procura responder a essas questões a partir de uma perspectiva própria. Algumas enfatizam a coesão social, as normas e as instituições; outras destacam os conflitos, as desigualdades e as disputas de poder. Existem também correntes que concentram sua análise nas interações cotidianas, na construção dos significados, na cultura, na linguagem, no gênero, na raça, no colonialismo e nas transformações contemporâneas.
As correntes sociológicas não devem ser vistas apenas como teorias isoladas. Elas são modos de investigação que influenciaram pesquisas, debates acadêmicos, políticas públicas e interpretações sobre temas como trabalho, educação, religião, família, Estado, cultura, violência, movimentos sociais e globalização.
Principais correntes:
1. Positivismo sociológico: o Positivismo foi uma das primeiras correntes associadas ao nascimento da Sociologia no século XIX. Seu principal representante foi Auguste Comte (1798–1857), pensador francês que defendia a criação de uma ciência da sociedade baseada na observação, na comparação e na busca de leis gerais do funcionamento social.
Para o Positivismo, a sociedade poderia ser estudada de modo semelhante aos fenômenos naturais, desde que o pesquisador adotasse métodos objetivos. Comte acreditava que a humanidade passava por etapas de desenvolvimento intelectual, saindo de explicações religiosas e metafísicas para alcançar o estágio positivo, caracterizado pelo conhecimento científico.
Uma ideia central dessa corrente é a valorização da ordem e do progresso. A sociedade seria um organismo composto por partes interdependentes, e a Sociologia teria a função de compreender essas partes para contribuir com a estabilidade social. Essa perspectiva teve grande influência no século XIX e chegou ao Brasil, inclusive no lema “Ordem e Progresso”, presente na bandeira republicana adotada após 1889.
Entre os limites do Positivismo, destaca-se sua tendência a valorizar a ordem social sem problematizar suficientemente os conflitos, as desigualdades e as relações de dominação. Mesmo assim, foi fundamental para a consolidação da Sociologia como campo científico.
Principais representantes: Auguste Comte, Harriet Martineau e, em parte, Émile Durkheim, embora Durkheim tenha desenvolvido uma Sociologia mais complexa e autônoma.
2. Funcionalismo: o Funcionalismo entende a sociedade como um sistema formado por instituições, normas e práticas que desempenham funções para a manutenção da vida coletiva. Essa corrente foi muito influenciada pela obra de Émile Durkheim (1858–1917), especialmente no fim do século XIX e início do século XX.
Para Durkheim, os fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir exteriores aos indivíduos e dotadas de poder coercitivo. Isso significa que a sociedade impõe normas, valores e expectativas aos seus membros, orientando comportamentos e garantindo certa regularidade na vida social.
O Funcionalismo considera que instituições como família, escola, religião, Estado e direito cumprem papéis importantes para a integração social. A escola, por exemplo, não transmite apenas conhecimentos formais, mas também normas de convivência, disciplina, valores coletivos e formas de pertencimento social.
Durkheim também diferenciou a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. A solidariedade mecânica predominaria em sociedades tradicionais, com pouca divisão do trabalho e forte semelhança entre os indivíduos. A solidariedade orgânica seria típica das sociedades modernas, marcadas pela especialização das funções e pela interdependência entre grupos e profissões.
No século XX, o Funcionalismo foi desenvolvido por autores como Talcott Parsons (1902–1979) e Robert K. Merton (1910–2003). Parsons analisou a sociedade como um sistema que busca equilíbrio, enquanto Merton elaborou conceitos como funções manifestas, funções latentes e disfunções sociais.
Principais representantes: Émile Durkheim, Talcott Parsons e Robert K. Merton.
3. Sociologia compreensiva: a Sociologia compreensiva está associada principalmente a Max Weber (1864–1920). Essa corrente procura compreender o sentido que os indivíduos atribuem às suas ações sociais. Diferentemente de perspectivas que analisam apenas estruturas gerais, Weber destacou a importância da ação individual orientada por significados.
Para Weber, a Sociologia deve interpretar a ação social, isto é, toda conduta humana que leva em consideração o comportamento de outras pessoas. Uma ação pode ser motivada por fins racionais, por valores, por emoções ou por tradições. Assim, a análise sociológica deve investigar não apenas o que as pessoas fazem, mas também por que fazem e que sentido atribuem às suas práticas.
Um dos conceitos centrais de Weber é o tipo ideal. Trata-se de um modelo analítico criado pelo pesquisador para compreender a realidade. O tipo ideal não é uma descrição exata do mundo, mas uma construção teórica que ajuda a comparar fenômenos sociais.
Weber também estudou a racionalização da sociedade moderna. Para ele, a modernidade foi marcada pelo crescimento da burocracia, do cálculo racional, da administração técnica e da organização impessoal. Essa racionalização trouxe eficiência, mas também poderia gerar o que ele chamou de “jaula de ferro”, expressão associada ao aprisionamento dos indivíduos em sistemas burocráticos e impessoais.
Outro tema importante em Weber é a relação entre religião e economia. Em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, publicada em 1905, ele analisou como certos valores religiosos do Protestantismo ascético contribuíram para a formação de uma mentalidade favorável ao trabalho disciplinado, à poupança e ao investimento.
Principais representantes: Max Weber, Alfred Schutz e autores ligados à fenomenologia social.
4. Materialismo histórico e sociologia marxista: a Sociologia marxista tem origem nas obras de Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895). Embora Marx não tenha se apresentado como sociólogo no sentido disciplinar moderno, sua análise da sociedade capitalista tornou-se uma das bases mais influentes da Sociologia.
Essa corrente interpreta a sociedade a partir das relações materiais de produção. Para Marx, a forma como os seres humanos produzem sua existência influencia profundamente as instituições, as ideias, as leis, a política e a cultura. A economia não explica tudo de maneira mecânica, mas ocupa posição central na organização da vida social.
Um conceito fundamental é o de classe social. No capitalismo, Marx identificou o conflito entre burguesia, proprietária dos meios de produção, e proletariado, formado pelos trabalhadores que vendem sua força de trabalho. Essa relação é marcada pela exploração, pois o trabalhador produz mais valor do que recebe em salário.
Outro conceito importante é o de mais-valia, que expressa a diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e o valor pago a ele pelo capitalista. Essa diferença é apropriada pelo proprietário dos meios de produção, constituindo a base da acumulação capitalista.
A Sociologia marxista também analisa a ideologia, entendida como conjunto de ideias que pode naturalizar relações de dominação e fazer com que desigualdades históricas pareçam inevitáveis. Para essa corrente, a sociedade é marcada por conflitos estruturais, e a mudança social ocorre por meio das contradições entre classes e grupos sociais.
No século XX, a tradição marxista foi desenvolvida por autores como Antonio Gramsci (1891–1937), Georg Lukács (1885–1971), Louis Althusser (1918–1990), Nicos Poulantzas (1936–1979) e diversos pensadores da Escola de Frankfurt.
Principais representantes: Karl Marx, Friedrich Engels, Antonio Gramsci, Georg Lukács, Louis Althusser e Nicos Poulantzas.
5. Teoria do conflito: a Teoria do Conflito aproxima-se da tradição marxista, mas abrange autores e perspectivas variadas. Ela parte da ideia de que a sociedade não é marcada apenas por consenso e integração, mas também por disputas, interesses contraditórios, desigualdades e relações de poder.
Para essa corrente, instituições como Estado, escola, direito, religião e meios de comunicação podem reproduzir privilégios e desigualdades. A ordem social, nesse sentido, não resulta somente da cooperação entre indivíduos, mas também da imposição de regras e valores pelos grupos dominantes.
A Teoria do Conflito não se limita ao conflito entre burguesia e proletariado. Ela também analisa conflitos de status, gênero, raça, etnia, geração, religião e acesso a recursos. Por isso, teve grande influência em estudos sobre desigualdade social, movimentos sociais, violência, criminalização da pobreza e dominação política.
Ralf Dahrendorf (1929–2009), por exemplo, destacou que o conflito também aparece nas relações de autoridade dentro das instituições. Para ele, a sociedade moderna é atravessada por disputas entre grupos que ocupam posições de mando e grupos submetidos à autoridade.
C. Wright Mills (1916–1962), outro nome importante, analisou a concentração de poder nas elites políticas, econômicas e militares dos Estados Unidos no século XX. Sua obra contribuiu para pensar como decisões tomadas por pequenos grupos influenciam a vida de grandes populações.
Principais representantes: Karl Marx, Ralf Dahrendorf, C. Wright Mills, Lewis Coser e Randall Collins.
6. Interacionismo simbólico: o Interacionismo simbólico surgiu nos Estados Unidos, especialmente na Escola de Chicago, entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Essa corrente concentra-se nas interações cotidianas e nos significados que os indivíduos constroem em suas relações sociais.
Para o Interacionismo simbólico, a sociedade não existe apenas como estrutura externa aos indivíduos. Ela também é produzida continuamente nas interações, nos gestos, na linguagem, nos símbolos e nas interpretações compartilhadas. As pessoas agem em relação às coisas com base nos significados que essas coisas têm para elas.
George Herbert Mead (1863–1931) foi um dos principais formuladores dessa perspectiva. Ele analisou a formação do “eu” por meio da interação social. Para Mead, a identidade individual é construída no contato com os outros, especialmente quando o indivíduo aprende a considerar expectativas sociais.
Herbert Blumer (1900–1987), que sistematizou o termo Interacionismo simbólico, destacou três princípios: os indivíduos agem com base nos significados; os significados surgem nas interações; e esses significados são modificados por meio de processos interpretativos.
Erving Goffman (1922–1982) também foi muito importante para essa tradição. Em obras como “A representação do eu na vida cotidiana”, publicada em 1956, ele comparou a vida social a uma encenação teatral, mostrando como as pessoas administram impressões e desempenham papéis conforme o contexto.
Principais representantes: George Herbert Mead, Herbert Blumer, Erving Goffman, Charles Horton Cooley e Howard Becker.
7. Fenomenologia social: a Fenomenologia social procura compreender a vida social a partir da experiência vivida pelos indivíduos. Essa corrente foi influenciada pela Filosofia fenomenológica de Edmund Husserl (1859–1938) e desenvolvida sociologicamente por Alfred Schutz (1899–1959).
Para Schutz, o mundo social é constituído por significados compartilhados. Os indivíduos vivem em um “mundo da vida”, isto é, um universo cotidiano tomado como familiar, no qual interpretam situações, reconhecem papéis e orientam suas ações.
Essa corrente valoriza o ponto de vista dos sujeitos. O pesquisador deve compreender como as pessoas percebem a realidade, organizam experiências, constroem expectativas e interpretam os comportamentos de outros indivíduos.
A Fenomenologia social influenciou pesquisas qualitativas, estudos sobre cotidiano, identidade, comunicação, cultura e conhecimento comum. Seu foco não está em grandes estruturas econômicas ou políticas, mas na forma como a realidade social é experimentada e compreendida pelos próprios participantes.
Principais representantes: Alfred Schutz, Peter Berger e Thomas Luckmann.
8. Construtivismo social: o Construtivismo social parte da ideia de que muitos aspectos da realidade social são produzidos historicamente por meio de práticas, instituições, linguagem e relações de poder. Ele não afirma que tudo é ilusório, mas que muitos significados considerados naturais são, na verdade, construções sociais.
Peter Berger (1929–2017) e Thomas Luckmann (1927–2016), em “A construção social da realidade”, publicada em 1966, defenderam que a sociedade é produzida pelos indivíduos e, ao mesmo tempo, passa a agir sobre eles como uma realidade objetiva.
Essa corrente analisa processos de institucionalização, legitimação e socialização. Uma prática social pode surgir em determinado contexto, repetir-se, tornar-se costume, ser institucionalizada e, posteriormente, parecer natural para as novas gerações.
O Construtivismo social é muito usado em estudos sobre gênero, infância, família, identidade, ciência, educação, corpo e cultura. Ele mostra como categorias sociais são criadas, disputadas e modificadas historicamente.
Principais representantes: Peter Berger, Thomas Luckmann, Pierre Bourdieu em alguns aspectos, Michel Foucault em diálogo com essa tradição, e autores contemporâneos dos estudos culturais.
9. Estruturalismo: o Estruturalismo ganhou força no século XX, especialmente a partir da Linguística de Ferdinand de Saussure (1857–1913) e da Antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908–2009). Na Sociologia e nas Ciências Humanas, essa corrente busca compreender as estruturas profundas que organizam a vida social, a linguagem, os mitos, os sistemas de parentesco e as formas culturais.
Para o Estruturalismo, os fenômenos sociais não podem ser entendidos apenas por meio das intenções individuais. É necessário investigar os sistemas de relações que organizam os significados. Assim, um costume, uma regra familiar ou uma classificação cultural só ganha sentido dentro de uma estrutura mais ampla.
Claude Lévi-Strauss estudou mitos e sistemas de parentesco, mostrando que diferentes sociedades organizam simbolicamente a realidade por meio de oposições, classificações e regras. Embora tenha sido antropólogo, sua influência sobre a Sociologia foi considerável.
Na Sociologia, o Estruturalismo contribuiu para análises sobre instituições, cultura, linguagem, sistemas simbólicos e reprodução social. Ele deslocou a atenção do indivíduo isolado para os sistemas que moldam práticas e representações.
Principais representantes: Claude Lévi-Strauss, Ferdinand de Saussure, Louis Althusser e Roland Barthes.
10. Estrutural-funcionalismo: o Estrutural-funcionalismo é uma corrente que combina a análise das estruturas sociais com a ideia de que essas estruturas cumprem funções para a manutenção da sociedade. Essa perspectiva foi especialmente influente na Sociologia norte-americana do século XX.
Talcott Parsons foi seu principal representante. Para ele, a sociedade é um sistema composto por partes integradas, como família, economia, política, religião e educação. Cada instituição contribui para a estabilidade do conjunto, transmitindo valores, regulando comportamentos e organizando expectativas sociais.
Parsons elaborou uma teoria da ação social e da ordem social. Segundo ele, a vida coletiva depende da interiorização de normas e valores pelos indivíduos. A socialização permite que as pessoas aprendam seus papéis e ajam conforme padrões reconhecidos pela sociedade.
Robert K. Merton reformulou parte dessa perspectiva ao diferenciar funções manifestas e funções latentes. As funções manifestas são consequências esperadas e reconhecidas de uma prática social; as funções latentes são consequências não planejadas ou não percebidas imediatamente.
O Estrutural-funcionalismo foi criticado por dar pouca atenção aos conflitos, às desigualdades e às mudanças sociais. Ainda assim, tornou-se uma referência importante para o estudo das instituições e da integração social.
Principais representantes: Talcott Parsons, Robert K. Merton e Kingsley Davis.
11. Escola de Frankfurt e teoria crítica: a Escola de Frankfurt surgiu na Alemanha, em 1923, com a criação do Instituto de Pesquisa Social. Seus autores desenvolveram a Teoria Crítica, uma corrente que combinou elementos do Marxismo, da Psicanálise, da Filosofia e da Sociologia para analisar a sociedade capitalista moderna.
A Teoria Crítica não se limita a descrever a sociedade. Ela busca revelar formas de dominação e contribuir para a emancipação humana. Seus autores criticaram a razão instrumental, isto é, o uso da racionalidade apenas como meio técnico de controle, eficiência e dominação.
Theodor Adorno (1903–1969) e Max Horkheimer (1895–1973), em “Dialética do esclarecimento”, publicada em 1947, analisaram como a razão moderna, que prometia liberdade, também poderia produzir controle social, massificação e autoritarismo.
Um conceito importante dessa corrente é indústria cultural. Adorno e Horkheimer usaram essa expressão para criticar a produção cultural padronizada no capitalismo, especialmente no rádio, no cinema, na música popular comercial e nos meios de comunicação de massa do século XX.
Herbert Marcuse (1898–1979) estudou a sociedade de consumo e a integração dos indivíduos ao capitalismo avançado. Jürgen Habermas (1929–) reformulou a Teoria Crítica ao enfatizar a ação comunicativa, a esfera pública e a importância do diálogo racional em sociedades democráticas.
Principais representantes: Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Erich Fromm e Jürgen Habermas.
12. Sociologia weberiana contemporânea: a tradição weberiana continuou influenciando análises sobre burocracia, poder, dominação, religião, racionalização e Estado. Essa corrente mantém o interesse pela ação social e pelos significados, mas também dialoga com questões contemporâneas.
Um conceito central é o de dominação legítima. Weber distinguiu três tipos de dominação: tradicional, baseada nos costumes; carismática, baseada nas qualidades excepcionais atribuídas a um líder; e racional-legal, baseada em normas, cargos e burocracias.
Essa perspectiva é relevante para compreender o funcionamento dos Estados modernos, das empresas, das universidades, dos tribunais, dos partidos políticos e das organizações administrativas. Em sociedades complexas, grande parte da vida social é mediada por documentos, regulamentos, cargos e procedimentos.
A Sociologia weberiana contemporânea também analisa a relação entre valores, ação política e modernidade. Ela evita explicações exclusivamente econômicas e procura compreender a pluralidade de motivações presentes nas ações humanas.
Principais representantes: Max Weber, Raymond Aron, Reinhard Bendix, Wolfgang Schluchter e Stephen Kalberg.
13. Sociologia bourdieusiana: a Sociologia de Pierre Bourdieu (1930–2002) tornou-se uma das mais influentes do século XX. Sua obra procurou superar a oposição entre indivíduo e sociedade, mostrando que as práticas sociais resultam tanto das estruturas objetivas quanto das disposições incorporadas pelos indivíduos.
Um dos conceitos centrais de Bourdieu é habitus. O habitus é um conjunto de disposições aprendidas ao longo da vida, especialmente pela família, escola e classe social. Ele orienta gostos, comportamentos, expectativas e formas de perceber o mundo.
Outro conceito fundamental é campo. Um campo é um espaço social relativamente autônomo, com regras próprias e disputas internas. Existem campos como o campo artístico, o campo político, o campo científico, o campo religioso e o campo educacional.
Bourdieu também analisou diferentes formas de capital. O capital econômico refere-se a bens e recursos financeiros; o capital cultural envolve conhecimentos, títulos escolares, modos de falar e repertórios culturais; o capital social relaciona-se às redes de contato; e o capital simbólico corresponde ao prestígio e ao reconhecimento social.
Essa corrente é muito utilizada em estudos sobre educação, desigualdade, cultura, elites, gosto, consumo, mídia e reprodução social. Bourdieu mostrou que a escola pode reproduzir desigualdades ao valorizar formas de cultura mais próximas das classes dominantes.
Principais representantes: Pierre Bourdieu, Jean-Claude Passeron, Loïc Wacquant e Bernard Lahire.
14. Etnometodologia: a Etnometodologia surgiu nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX, principalmente com Harold Garfinkel (1917–2011). Essa corrente investiga os métodos cotidianos usados pelas pessoas para produzir ordem, sentido e normalidade nas interações sociais.
Para a Etnometodologia, a vida social não é apenas determinada por grandes estruturas. Ela é continuamente construída por ações práticas, conversas, interpretações e procedimentos comuns. Os indivíduos usam conhecimentos compartilhados para compreender situações e agir de forma considerada adequada.
Garfinkel estudou como as pessoas mantêm expectativas sociais no cotidiano. Situações aparentemente simples, como uma conversa, uma fila ou uma interação em um atendimento, dependem de regras tácitas que raramente são explicitadas.
Essa corrente influenciou os estudos da linguagem, da conversação, da interação face a face, do trabalho institucional e da produção cotidiana da realidade social. Sua importância está em mostrar que a ordem social é construída em detalhes práticos da vida diária.
Principais representantes: Harold Garfinkel, Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson.
15. Sociologia feminista: a Sociologia feminista analisa como as relações de gênero estruturam a vida social. Essa corrente critica interpretações sociológicas que trataram a experiência masculina como universal e deixaram em segundo plano o trabalho, a vida doméstica, a violência, a sexualidade, a participação política e a produção intelectual das mulheres.
Desde o século XIX, autoras como Harriet Martineau (1802–1876) já abordavam temas ligados à desigualdade, à moralidade, à escravidão e à condição das mulheres. No século XX, a Sociologia feminista ganhou força com os movimentos feministas, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970.
Essa corrente estuda a divisão sexual do trabalho, a desigualdade salarial, a maternidade, a família, a violência de gênero, o patriarcado, a representação das mulheres na mídia, a política do corpo e a participação feminina nas instituições.
Uma contribuição importante da Sociologia feminista é mostrar que o espaço privado também é social e político. Relações familiares, trabalho doméstico e cuidados não remunerados são fundamentais para a reprodução da sociedade, embora muitas vezes sejam desvalorizados.
A partir do fim do século XX, a perspectiva interseccional ampliou a análise ao mostrar que gênero se articula com raça, classe social, sexualidade, território, nacionalidade e geração. Essa abordagem tornou-se central para compreender desigualdades complexas.
Principais representantes: Harriet Martineau, Simone de Beauvoir, Ann Oakley, Dorothy Smith, Patricia Hill Collins, bell hooks e Heleieth Saffioti.
16. Sociologia pós-colonial e decolonial: as correntes pós-colonial e decolonial analisam os efeitos históricos, culturais, econômicos e políticos do colonialismo, especialmente a partir da expansão europeia iniciada no século XV e da consolidação dos impérios coloniais entre os séculos XVI e XX.
A perspectiva pós-colonial ganhou força no século XX, especialmente após os processos de descolonização da África e da Ásia entre as décadas de 1940 e 1970. Ela critica a forma como o conhecimento europeu foi frequentemente apresentado como universal, enquanto saberes de povos colonizados foram desvalorizados.
Autores pós-coloniais analisam temas como orientalismo, identidade, dominação cultural, racismo, nacionalismo, diáspora e representação. Edward Said (1935–2003), em “Orientalismo”, publicado em 1978, mostrou como o Ocidente construiu imagens do Oriente associadas ao exotismo, à inferiorização e ao controle político.
A perspectiva decolonial, muito influente na América Latina, destaca a colonialidade do poder. Esse conceito aponta que, mesmo após o fim formal do colonialismo, permanecem hierarquias raciais, econômicas, culturais e epistemológicas herdadas da dominação colonial.
Essa corrente é importante para compreender desigualdades globais, racismo estrutural, dependência econômica, apagamento de saberes indígenas e africanos, e críticas à ideia de modernidade como experiência exclusivamente europeia.
Principais representantes: Edward Said, Frantz Fanon, Gayatri Spivak, Homi Bhabha, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Enrique Dussel, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro.
17. Sociologia cultural: a Sociologia cultural analisa os símbolos, valores, práticas, representações, rituais, identidades e formas de produção de sentido presentes na vida social. Essa corrente parte da ideia de que a cultura não é apenas reflexo da economia ou da política, mas uma dimensão ativa na construção da sociedade.
Ela investiga temas como religião, arte, mídia, consumo, juventude, memória coletiva, patrimônio, linguagem, festas, estilos de vida e identidades sociais. A cultura é entendida como um campo de disputas, no qual grupos sociais atribuem significados ao mundo e lutam por reconhecimento.
A Sociologia cultural dialoga com diferentes tradições, como o Interacionismo simbólico, a Antropologia, os Estudos Culturais, a Teoria Crítica e a Sociologia de Bourdieu. Por isso, não forma uma escola única, mas um amplo campo de análise.
Um de seus temas centrais é a relação entre cultura e poder. As representações sociais podem reforçar estereótipos, legitimar desigualdades ou abrir espaço para resistências e transformações.
Principais representantes: Georg Simmel, Norbert Elias, Pierre Bourdieu, Stuart Hall, Jeffrey Alexander e Raymond Williams.
18. Sociologia figuracional: a Sociologia figuracional está associada principalmente a Norbert Elias (1897–1990). Essa corrente analisa a sociedade como uma rede de interdependências entre indivíduos e grupos. Para Elias, indivíduo e sociedade não são realidades separadas, mas dimensões de um mesmo processo.
Em “O processo civilizador”, publicado originalmente em 1939, Elias estudou mudanças nos comportamentos, nas emoções, nos costumes e nas formas de autocontrole na Europa desde a Idade Média. Ele mostrou que transformações políticas e sociais influenciaram normas de etiqueta, controle dos impulsos e padrões de convivência.
A ideia de figuração é central em sua obra. Uma figuração é uma rede dinâmica de relações entre pessoas interdependentes. Famílias, cortes, Estados, escolas, cidades e grupos profissionais podem ser analisados como figurações.
Essa corrente é importante porque evita tanto o individualismo extremo quanto o determinismo estrutural. Ela mostra que as ações individuais ocorrem em redes de dependência recíproca, nas quais o poder se distribui de maneira desigual.
Principais representantes: Norbert Elias, Eric Dunning e pesquisadores ligados à Sociologia dos processos sociais.
19. Sociologia do conhecimento: a Sociologia do conhecimento investiga como ideias, crenças, teorias, valores e formas de pensamento estão ligadas aos contextos sociais em que surgem. Essa corrente não analisa o conhecimento apenas como produto individual, mas como resultado de condições históricas, institucionais e coletivas.
Karl Mannheim (1893–1947) foi um dos principais representantes dessa corrente. Ele analisou a relação entre pensamento e posição social, mostrando que diferentes grupos podem interpretar a realidade de formas distintas conforme sua localização histórica e social.
Essa corrente também se relaciona com a obra de Max Scheler (1874–1928), Peter Berger, Thomas Luckmann e autores posteriores da Sociologia da ciência. Ela permite compreender como instituições, universidades, religiões, classes sociais, meios de comunicação e Estados influenciam a produção e a circulação de ideias.
A Sociologia do conhecimento é relevante para estudar ideologias, ciência, senso comum, educação, opinião pública e disputas intelectuais. Seu ponto central é que o conhecimento não circula em um vazio social, mas em ambientes marcados por interesses, valores, hierarquias e instituições.
Principais representantes: Karl Mannheim, Max Scheler, Peter Berger, Thomas Luckmann e Robert K. Merton.
20. Sociologia pós-moderna: a Sociologia pós-moderna ganhou força na segunda metade do século XX, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980. Essa corrente questiona grandes narrativas explicativas, como a crença em progresso linear, razão universal e modelos únicos de emancipação social.
Para os autores pós-modernos, as sociedades contemporâneas são marcadas pela fragmentação das identidades, pela centralidade da mídia, pelo consumo, pela fluidez das relações sociais e pela multiplicidade de discursos. A realidade social passa a ser analisada também por meio de imagens, representações, linguagens e simulações.
Jean Baudrillard (1929–2007), por exemplo, analisou a sociedade de consumo e os simulacros, isto é, representações que passam a ter mais força social do que a própria realidade representada. Zygmunt Bauman (1925–2017), embora nem sempre classificado estritamente como pós-moderno, desenvolveu a ideia de modernidade líquida, associada à instabilidade das relações, instituições e identidades contemporâneas.
A Sociologia pós-moderna é importante para pensar consumo, mídia, subjetividade, globalização, individualização e crise das instituições tradicionais. Contudo, também recebe críticas por, em alguns casos, relativizar excessivamente a análise das estruturas materiais e das desigualdades sociais.
Principais representantes: Jean Baudrillard, Jean-François Lyotard, Michel Maffesoli, Zygmunt Bauman e Anthony Giddens em diálogo crítico com esse debate.
21. Sociologia da escolha racional: a Sociologia da escolha racional interpreta a ação social a partir da ideia de que os indivíduos tomam decisões considerando custos, benefícios, incentivos e consequências. Essa corrente aproxima-se de modelos analíticos usados na Economia, mas busca aplicá-los a fenômenos sociais mais amplos.
Para essa perspectiva, práticas sociais podem ser compreendidas a partir das escolhas feitas por indivíduos em determinados contextos. Isso não significa que as pessoas sejam sempre perfeitamente racionais, mas que suas ações podem ser analisadas segundo interesses, restrições e oportunidades.
James Coleman (1926–1995) foi um dos principais representantes dessa corrente. Ele procurou conectar ações individuais e resultados coletivos, mostrando como decisões particulares podem produzir efeitos sociais amplos, inclusive não planejados.
Essa abordagem é usada em estudos sobre educação, crime, religião, comportamento político, cooperação, redes sociais e movimentos coletivos. Seu limite está na tendência de reduzir fenômenos complexos a cálculos individuais, deixando em segundo plano emoções, valores, cultura e estruturas de dominação.
Principais representantes: James Coleman, Raymond Boudon, Jon Elster e Peter Blau.
22. Sociologia sistêmica: a Sociologia sistêmica entende a sociedade como um conjunto de sistemas diferenciados, como política, economia, direito, ciência, educação e religião. Seu principal representante foi Niklas Luhmann (1927–1998), sociólogo alemão que desenvolveu uma teoria complexa dos sistemas sociais.
Para Luhmann, a sociedade moderna é caracterizada pela diferenciação funcional. Isso significa que cada sistema opera segundo uma lógica própria. A economia funciona por meio do código pagamento/não pagamento; o direito, por legal/ilegal; a política, por poder/oposição; a ciência, por verdadeiro/falso.
Essa corrente dá grande importância à comunicação. Para Luhmann, a sociedade não é composta simplesmente por indivíduos, mas por comunicações. Os indivíduos pertencem ao ambiente dos sistemas sociais, enquanto a comunicação constitui o funcionamento da sociedade.
A Sociologia sistêmica é usada para analisar sociedades complexas, instituições modernas, burocracias, meios de comunicação, risco, confiança e diferenciação social. Sua linguagem teórica é abstrata, mas oferece instrumentos relevantes para compreender a complexidade das sociedades contemporâneas.
Principais representantes: Niklas Luhmann, Talcott Parsons em uma tradição anterior, e autores contemporâneos da teoria dos sistemas sociais.
23. Sociologia latino-americana: a Sociologia latino-americana desenvolveu interpretações próprias sobre dependência, colonialismo, desigualdade, Estado, desenvolvimento, autoritarismo, movimentos sociais e formação histórica das sociedades da América Latina. Ela ganhou força especialmente no século XX.
Entre as décadas de 1950 e 1970, a Teoria da Dependência teve grande influência. Essa corrente criticou a ideia de que todos os países seguiriam o mesmo caminho de desenvolvimento das potências industriais. Para seus autores, a pobreza e a desigualdade na América Latina estavam ligadas à posição periférica da região no capitalismo mundial.
A Sociologia latino-americana também estudou temas como latifúndio, urbanização desigual, industrialização dependente, populismo, ditaduras militares, movimentos camponeses, sindicatos, favelização, racismo, desigualdade educacional e democracia.
No Brasil, a Sociologia teve nomes importantes como Florestan Fernandes (1920–1995), que analisou a formação da sociedade brasileira, a questão racial, a educação e a integração dos negros na sociedade de classes. Gilberto Freyre (1900–1987), embora associado a interpretações culturalistas, também teve grande impacto nos debates sobre família, escravidão e formação social brasileira.
Essa corrente é fundamental porque interpreta a realidade social latino-americana a partir de suas próprias especificidades históricas, evitando a simples aplicação de modelos europeus ou norte-americanos.
Principais representantes: Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Enzo Faletto, Celso Furtado, Gino Germani, José Nun, Aníbal Quijano, Octavio Ianni e Ruy Mauro Marini.
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| Infográfico didático com síntese sobre as principais correntes da Sociologia |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 07/06/2026
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/Sociology