Quem foi
Mikhail Bakunin (1814–1876) foi um revolucionário russo, ativista político e um dos principais representantes do anarquismo no século XIX. Tornou-se conhecido por sua participação em movimentos revolucionários europeus e por sua defesa de uma transformação social baseada no fim das estruturas autoritárias. Ao longo da vida, envolveu-se em levantes, organizações políticas e debates com outros pensadores socialistas de sua época, exercendo grande influência sobre movimentos operários e libertários.
Biografia
Mikhail Aleksandrovich Bakunin nasceu em 30 de maio de 1814, na localidade de Priamukhino, no Império Russo, em uma família pertencente à pequena nobreza rural. Seu pai, Aleksandr Bakunin, era proprietário de terras e havia recebido formação intelectual na Europa Ocidental. O ambiente familiar proporcionou a Mikhail uma educação ampla, baseada em línguas estrangeiras, Literatura, Filosofia e História.
Na juventude, Bakunin foi enviado para uma escola militar em São Petersburgo. Em 1832, passou a servir como oficial de artilharia do Exército russo, sendo transferido para regiões do atual território da Lituânia e de Belarus. A carreira militar, no entanto, não correspondia aos seus interesses. Em 1835, abandonou o Exército e mudou-se para Moscou, onde começou a frequentar círculos intelectuais formados por escritores, filósofos e críticos do governo czarista.
Durante sua permanência em Moscou, aproximou-se do filósofo Aleksandr Herzen e de outros jovens intelectuais russos interessados na cultura europeia. Bakunin dedicou-se ao estudo da Filosofia alemã e traduziu textos para o russo. Em 1840, deixou a Rússia e seguiu para Berlim, inicialmente com o objetivo de ampliar sua formação universitária. Pouco depois, passou a participar de grupos políticos e revolucionários em diferentes países europeus.
Na década de 1840, viveu em cidades como Dresden, Paris, Bruxelas e Zurique. Em Paris, manteve contato com importantes intelectuais e ativistas políticos, entre eles Pierre-Joseph Proudhon, Karl Marx e Friedrich Engels. As autoridades russas acompanharam suas atividades no exterior e, em 1844, confiscaram seus bens e retiraram seus direitos de nobreza, exigindo seu retorno ao país.
Bakunin participou ativamente das Revoluções de 1848, que atingiram diversas regiões da Europa. Esteve envolvido em movimentos revolucionários em Paris, Praga e Dresden. Após a derrota do levante de Dresden, em maio de 1849, foi preso pelas autoridades da Saxônia. Condenado à morte, teve a pena posteriormente substituída pela prisão perpétua. Em seguida, foi entregue ao governo austríaco, que também o condenou à morte, mas novamente a sentença foi comutada.
Em 1851, Bakunin foi enviado às autoridades do Império Russo. Permaneceu preso por vários anos em fortalezas como a de Pedro e Paulo e a de Schlüsselburg. As condições precárias de encarceramento comprometeram gravemente sua saúde. Em 1857, recebeu autorização para cumprir a pena de exílio na Sibéria, onde viveu inicialmente em Tomsk e depois em Irkutsk. Durante esse período, casou-se com a jovem polonesa Antonia Kwiatkowska.
Em 1861, Bakunin conseguiu escapar da Sibéria. Viajou pelo rio Amur até o litoral do Pacífico, embarcou em um navio e passou pelo Japão, pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Chegou a Londres no final daquele ano, reencontrando antigos companheiros do movimento revolucionário russo. A partir desse momento, retomou intensamente suas atividades políticas em diferentes partes da Europa.
Nas décadas de 1860 e 1870, viveu principalmente na Itália e na Suíça. Participou da criação de associações revolucionárias e estabeleceu contatos com trabalhadores, estudantes e militantes de vários países. Em 1868, ingressou na Associação Internacional dos Trabalhadores, conhecida como Primeira Internacional. Sua atuação provocou conflitos com Karl Marx e seus aliados, sobretudo em razão das divergências sobre a organização e a direção do movimento operário.
Em 1872, Bakunin e seus seguidores foram expulsos da Primeira Internacional durante o Congresso de Haia. Depois disso, continuou ligado a organizações revolucionárias europeias, embora sua saúde estivesse cada vez mais debilitada. Em 1874, participou de uma tentativa de insurreição em Bolonha, na Itália, que fracassou antes de alcançar seus objetivos.
Nos últimos anos de vida, Bakunin residiu principalmente na Suíça, enfrentando dificuldades financeiras e graves problemas de saúde. Morreu em 1º de julho de 1876, na cidade de Berna, aos 62 anos.
Principais ideias políticas e sociais:
• Bakunin também foi um defensor do ateísmo e do coletivismo, além de ser contrário à politização das organizações.
• O pensamento de Bakunin foi influenciado por Hegel, Fourier, Louis Blanc, Cabet e Proudhon.
• Ele acreditava que a verdadeira liberdade só poderia existir quando a igualdade econômica e social estivesse presente.
• Argumentava contra o individualismo abstrato do liberalismo, enfatizando que a liberdade não se encontra no isolamento, mas na interação e conexão com os outros.
• O federalismo era um componente importante da visão de Bakunin para organizar a sociedade. Ele acreditava em uma estrutura de governo descentralizada, onde unidades locais ou comunas se federariam voluntariamente para gerenciar assuntos comuns enquanto mantinham sua autonomia.
• Suas ideias eram enraizadas no materialismo, com foco nas condições materiais de existência. Bakunin acreditava que as ideias devem ser baseadas em fatos e que o ideal é um reflexo das condições materiais.
• O anarquismo de Bakunin incluía uma forte oposição ao estado em qualquer forma. Ele via o estado como inerentemente opressor e acreditava que deveria ser abolido em favor de uma sociedade sem estado organizada em torno de associações e federações voluntárias.
• Ele defendia a coletivização dos meios de produção e a propriedade comum dos recursos, o que acreditava levaria a uma sociedade baseada no trabalho coletivo, propriedade e gestão.
• Bakunin colocava grande ênfase na emancipação da classe trabalhadora, que via como a chave para desmantelar o sistema capitalista e construir uma nova ordem social baseada na liberdade.
Principais obras de Bakunin:
“Deus e o Estado”
Publicada postumamente em 1882, “Deus e o Estado” é a obra mais conhecida de Bakunin. No texto, o autor critica as religiões institucionalizadas e argumenta que a crença em uma autoridade divina pode ser utilizada para justificar a submissão dos indivíduos às autoridades políticas e religiosas. Para Bakunin, a liberdade humana dependeria da rejeição de poderes considerados absolutos, fossem eles representados pelo Estado ou pelas instituições religiosas. O livro fazia parte de um projeto mais amplo que permaneceu inacabado.
“Estatismo e Anarquia”
Escrita em 1873, “Estatismo e Anarquia” foi uma das últimas e mais importantes obras de Bakunin. Nela, o revolucionário apresenta suas críticas ao Estado centralizado e às propostas socialistas que defendiam a conquista do poder político como etapa necessária para a transformação social. Bakunin considerava que um governo dirigido por uma elite revolucionária poderia criar uma nova classe dominante, mantendo a opressão sob outra forma. Como alternativa, defendia uma organização social formada por associações livres e federadas.
“Catecismo Revolucionário”
Elaborado em 1866, o “Catecismo Revolucionário” apresenta um programa para a reorganização política, econômica e social da sociedade. Bakunin defende a igualdade de direitos, a liberdade individual, o fim dos privilégios hereditários e a substituição dos Estados centralizados por federações de comunidades autônomas. Apesar do título, o texto não possui caráter religioso, pois utiliza a estrutura de um catecismo apenas como forma sistemática de exposição de princípios revolucionários.
“Federalismo, Socialismo e Antiteologismo”
Produzido em 1867, esse texto foi apresentado como uma proposta para a Liga da Paz e da Liberdade, organização formada por intelectuais e ativistas europeus. Bakunin relaciona três elementos centrais de seu pensamento: a organização federativa da sociedade, a transformação socialista da economia e a crítica à influência política das religiões. A obra sustenta que a paz entre os povos somente seria possível com a superação dos Estados centralizados, das desigualdades econômicas e das formas autoritárias de poder.
“O Império Cnuto-Germânico e a Revolução Social”
Escrita no início da década de 1870, a obra analisa a situação política europeia após a Guerra Franco-Prussiana de 1870–1871. A expressão “cnuto-germânico” associa simbolicamente o autoritarismo russo, representado pelo chicote chamado knout, ao militarismo e à expansão do poder germânico. Bakunin critica os impérios, o nacionalismo estatal e a centralização política, defendendo que a transformação social deveria partir da ação autônoma dos trabalhadores e das comunidades populares.
“Apelo aos Eslavos”
Publicado em 1848, durante as revoluções que se espalharam pela Europa, o “Apelo aos Eslavos” conclamava os povos eslavos submetidos aos grandes impérios a se unirem em uma luta revolucionária. Nesse período, Bakunin ainda estava fortemente ligado ao nacionalismo revolucionário e à defesa da libertação dos povos dominados pelos impérios Russo, Austríaco e Otomano. O texto também revela sua expectativa de que as revoluções nacionais se transformassem em movimentos mais amplos de emancipação social.
“Cartas a um Francês sobre a Crise Atual”
Escritas em 1870, durante a Guerra Franco-Prussiana, essas cartas analisam a crise política e militar enfrentada pela França. Bakunin acreditava que a derrota do governo imperial poderia criar condições para uma revolução popular organizada pelas comunas, pelos trabalhadores e pelos camponeses. A obra rejeita tanto a ocupação prussiana quanto a simples restauração de um governo central francês, propondo uma federação livre de comunidades revolucionárias.
“A Comuna de Paris e a Noção de Estado”
Nesse texto, Bakunin examina a experiência da Comuna de Paris de 1871, movimento no qual trabalhadores e setores populares assumiram temporariamente o governo da capital francesa. Embora não tivesse participado diretamente da insurreição, considerou a Comuna um exemplo de organização popular baseada na autonomia municipal e na rejeição do Estado centralizado. Também destacou suas limitações, mas interpretou o episódio como uma importante experiência revolucionária do século XIX.
“Ciência e a Questão Vital da Revolução”
O texto discute o papel do conhecimento científico nas transformações sociais. Bakunin reconhece a importância da Ciência para a compreensão da natureza e da sociedade, mas rejeita a ideia de que cientistas ou intelectuais devam governar a população. Em sua interpretação, o domínio de especialistas poderia produzir uma nova forma de autoritarismo. A Ciência deveria orientar e esclarecer os indivíduos, sem se transformar em uma instituição dotada de poder político.
“A Política da Internacional”
Produzido no contexto da Associação Internacional dos Trabalhadores, o texto explica como Bakunin compreendia a atuação política do movimento operário. Em lugar da participação prioritária em eleições e parlamentos, defendia a organização direta dos trabalhadores em associações, sindicatos e federações. Essas entidades deveriam lutar por melhores condições de vida e, simultaneamente, preparar uma transformação profunda da sociedade.
Exemplos de frases:
“Sou um amante fanático da liberdade...”
“O direito à liberdade sem os meios para alcançá-la é apenas um sonho”.
“O homem privilegiado politicamente ou economicamente é um homem intelectualmente e moralmente corrupto”.
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| Mikhail Bakunin: importante filósofo e sociólogo russo do século XIX. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 05/08/2026
Fontes:
https://www.britannica.com/biography/Mikhail-Bakunin
GUILLÉN, M. Bakunin: o anarquista russo. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.
ROCKER, R. Mikhail Bakunin: a biografia. São Paulo: Expressão Popular, 2003.
Vídeo indicado no YouTube:
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