Introdução: O Romantismo em Portugal
O Romantismo em Portugal foi um movimento literário, artístico e cultural que se desenvolveu principalmente no século XIX, em um contexto de transformações políticas, sociais e intelectuais. Ele surgiu em oposição aos modelos rígidos do Classicismo e do Neoclassicismo, valorizando a liberdade criadora, a subjetividade, o sentimento, a imaginação, o nacionalismo e o interesse pela história e pela cultura popular. Em Portugal, o Romantismo esteve fortemente ligado ao Liberalismo, às lutas políticas entre absolutistas e liberais e à tentativa de renovar a literatura portuguesa após um período de forte influência dos padrões clássicos.
As gerações românticas portuguesas costumam ser divididas em três momentos principais. A primeira geração teve caráter nacionalista, histórico e liberal; a segunda aprofundou o sentimentalismo, o pessimismo e o subjetivismo; a terceira apresentou maior equilíbrio formal e preparou a transição para o Realismo. Cada geração expressou, de maneira própria, os dilemas de Portugal no século XIX, tanto na vida política quanto na produção literária.
Primeira geração romântica: nacionalismo, liberalismo e romance histórico
A primeira geração do Romantismo português desenvolveu-se aproximadamente entre as décadas de 1820 e 1840. Esse período foi marcado pelas lutas liberais, pela crise do Antigo Regime e pela busca de uma nova identidade cultural para Portugal. Os escritores dessa geração participaram ativamente dos debates políticos de seu tempo e viam a literatura como instrumento de renovação moral, cívica e nacional.
Uma das principais características dessa fase foi o nacionalismo literário. Os autores procuraram valorizar a história de Portugal, seus heróis, suas tradições, suas paisagens e sua cultura popular. Em vez de imitar rigidamente os modelos greco-romanos, como ocorria no Classicismo, os românticos passaram a defender uma literatura mais ligada à realidade histórica e cultural portuguesa. A Idade Média tornou-se uma fonte importante de inspiração, pois era vista como período formador da nacionalidade.
Outra característica relevante foi o vínculo entre literatura e Liberalismo. Muitos escritores da primeira geração defenderam ideias liberais, constitucionais e modernizadoras. A literatura, nesse contexto, não era apenas uma expressão de sentimentos individuais, mas também uma forma de intervenção na sociedade. O escritor romântico assumia, muitas vezes, o papel de intelectual público, preocupado com os rumos políticos e culturais do país.
O romance histórico foi um dos gêneros mais importantes dessa geração. Inspirado em autores europeus como Walter Scott, esse tipo de narrativa misturava personagens fictícios com acontecimentos históricos, reconstruindo épocas passadas e valorizando a memória nacional. A poesia também teve grande destaque, especialmente quando abordava temas patrióticos, religiosos, sentimentais e históricos.
Almeida Garrett foi um dos principais nomes da primeira geração romântica portuguesa. Ele teve papel decisivo na introdução do Romantismo em Portugal e atuou como poeta, dramaturgo, prosador e político. Entre suas obras mais importantes estão "Camões", publicada em 1825, considerada um marco inicial do Romantismo português; "Dona Branca", poema narrativo de inspiração medieval; "Frei Luís de Sousa", peça teatral de grande importância na dramaturgia portuguesa; e "Viagens na Minha Terra", obra híbrida que mistura narrativa de viagem, reflexão política, crítica social e elementos sentimentais.
Em "Camões", Garrett transforma o poeta Luís de Camões em símbolo da pátria, do sofrimento individual e da grandeza nacional. A obra expressa traços românticos como o culto ao gênio incompreendido, o nacionalismo e a valorização da emoção. Já em "Frei Luís de Sousa", o autor apresenta uma tragédia marcada por conflitos familiares, religiosos e morais, utilizando uma linguagem dramática intensa e explorando temas como destino, culpa, honra e sacrifício.
Alexandre Herculano também foi um escritor central da primeira geração. Historiador, romancista, poeta e jornalista, ele valorizou a pesquisa histórica e contribuiu para a formação de uma consciência nacional moderna. Suas obras revelam grande interesse pela Idade Média portuguesa, pela formação do reino e pelos conflitos entre religião, política e sociedade.
Entre as principais obras de Alexandre Herculano estão "Eurico, o Presbítero", "O Monge de Cister", "Lendas e Narrativas" e "História de Portugal". Em "Eurico, o Presbítero", o autor apresenta uma narrativa ambientada na Península Ibérica durante a invasão muçulmana, abordando temas como amor impossível, religiosidade, heroísmo e sofrimento. A obra combina o gosto romântico pelo passado medieval com uma visão trágica da existência humana.
António Feliciano de Castilho também pertence a esse primeiro momento romântico, embora sua obra apresente características mais conservadoras e próximas de certa tradição clássica. Ele foi poeta, tradutor e defensor de uma literatura mais harmoniosa e formalmente cuidada. Entre suas obras estão "A Noite do Castelo" e "Os Ciúmes do Bardo". Castilho teve grande influência cultural em sua época, mas posteriormente seria criticado por escritores mais jovens, especialmente na Questão Coimbrã, em 1865.
Segunda geração romântica: sentimentalismo, subjetivismo e ultrarromantismo
A segunda geração romântica portuguesa desenvolveu-se principalmente entre as décadas de 1840 e 1860. Essa fase é frequentemente associada ao Ultrarromantismo, tendência marcada pelo excesso sentimental, pelo pessimismo, pela idealização amorosa e pela visão melancólica da vida. Diferentemente da primeira geração, mais voltada para o nacionalismo e para a ação política, a segunda geração concentrou-se mais no mundo interior do indivíduo.
O subjetivismo foi uma das principais marcas dessa fase. Os escritores passaram a destacar as emoções pessoais, os conflitos íntimos, a dor amorosa, a solidão, o sofrimento e o desencanto. O eu lírico ou o narrador romântico aparece frequentemente como um ser sensível, incompreendido e deslocado diante da sociedade. A vida é apresentada, muitas vezes, como experiência de frustração, perda e impossibilidade de realização plena.
O amor, na segunda geração, costuma ser tratado de forma idealizada e dolorosa. A mulher amada aparece frequentemente como figura pura, distante, angelical ou inacessível. O sentimento amoroso é visto como absoluto, mas quase sempre condenado ao fracasso. Essa concepção gera narrativas e poemas marcados por saudade, lágrimas, morte simbólica ou real, abandono e sofrimento emocional.
Outro traço marcante foi o gosto pela morte, pela noite, pela doença, pelo mistério e pela evasão. Muitos textos dessa geração apresentam personagens frágeis, melancólicos ou atormentados. O ambiente noturno, os cemitérios, os espaços sombrios e os estados emocionais extremos tornaram-se elementos recorrentes. Essa tendência expressava uma sensibilidade romântica exagerada, voltada para o drama interior e para a recusa da vida cotidiana.
Camilo Castelo Branco foi o principal prosador da segunda geração romântica portuguesa. Sua obra é vasta e inclui romances passionais, novelas, textos satíricos, crônicas e escritos autobiográficos. Camilo explorou intensamente os conflitos amorosos, familiares e sociais, sobretudo em narrativas marcadas por paixão, sofrimento, honra, ciúme, vingança e destino trágico.
Entre suas obras mais conhecidas estão "Amor de Perdição", "Amor de Salvação", "A Queda dum Anjo", "Novelas do Minho" e "Coração, Cabeça e Estômago". "Amor de Perdição", publicada em 1862, é uma das obras mais representativas do Ultrarromantismo português. O romance narra a história de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, jovens apaixonados que enfrentam a oposição das famílias e acabam envolvidos em uma trajetória de sofrimento, prisão, renúncia e morte.
"Amor de Perdição" apresenta características típicas da segunda geração: amor impossível, conflito entre sentimento individual e normas sociais, oposição familiar, linguagem emocional, idealização da mulher amada e desfecho trágico. A obra também revela a crítica de Camilo às convenções sociais e à rigidez das estruturas familiares da época.
Soares de Passos foi um dos principais poetas ultrarromânticos portugueses. Sua poesia expressa melancolia, religiosidade, sofrimento, desejo de morte e visão pessimista da existência. Sua obra mais conhecida é o poema "O Noivado do Sepulcro", texto fortemente marcado pelo gosto romântico pelo fúnebre e pelo sentimentalismo extremo. Nele, o amor ultrapassa os limites da vida e se associa diretamente à morte, ao túmulo e à atmosfera sombria.
João de Deus também se destacou na poesia romântica portuguesa, embora sua obra apresente maior simplicidade, musicalidade e delicadeza lírica. Entre suas obras estão "Campo de Flores" e "Folhas Soltas". Sua poesia valoriza o sentimento amoroso, a espiritualidade, a ternura e a expressão lírica mais direta. Diferentemente de outros ultrarromânticos, João de Deus evitou, em muitos momentos, o excesso dramático, preferindo uma linguagem mais espontânea e emotiva.
Terceira geração romântica: equilíbrio, crítica social e transição para o Realismo
A terceira geração romântica portuguesa desenvolveu-se aproximadamente entre as décadas de 1860 e 1870. Essa fase representa um momento de transição. Embora ainda mantenha elementos românticos, como a valorização do sentimento, da imaginação e da subjetividade, ela se aproxima de uma literatura mais crítica, observadora e preocupada com os problemas sociais. Por isso, é comum dizer que essa geração preparou o caminho para o Realismo em Portugal.
Uma característica importante dessa fase foi a redução dos excessos ultrarromânticos. Os autores passaram a buscar maior equilíbrio formal, mais atenção à vida social e uma linguagem menos dominada pelo sentimentalismo exagerado. A literatura começa a se afastar do culto absoluto ao sofrimento individual e passa a observar com mais interesse os costumes, as relações sociais, a educação, a moral burguesa e as contradições da sociedade portuguesa.
Essa geração também foi marcada por tensões intelectuais. O ambiente cultural português sofreu influência de novas correntes filosóficas, científicas e sociais vindas da Europa, como o positivismo, o socialismo, o cientificismo e as ideias de renovação crítica da literatura. Essas tendências seriam fundamentais para a formação da chamada Geração de 70, ligada ao Realismo e à crítica da sociedade portuguesa.
Júlio Dinis foi um dos principais escritores da terceira geração romântica. Sua obra apresenta traços românticos, mas também revela observação social, descrição de costumes e maior equilíbrio narrativo. Seus romances costumam abordar ambientes rurais e urbanos, relações familiares, educação sentimental e valores da vida burguesa. Há em seus textos uma visão mais serena e conciliadora da sociedade.
Entre suas principais obras estão "As Pupilas do Senhor Reitor", "A Morgadinha dos Canaviais", "Uma Família Inglesa" e "Os Fidalgos da Casa Mourisca". Em "As Pupilas do Senhor Reitor", Júlio Dinis retrata a vida rural portuguesa, os costumes familiares, os conflitos amorosos e os valores morais de uma comunidade. A obra combina idealização romântica com observação dos comportamentos sociais.
Em "Uma Família Inglesa", o autor apresenta o ambiente urbano e comercial do Porto, explorando relações familiares, trabalho, vida burguesa e convivência entre diferentes tradições culturais. Esse interesse pela realidade social aproxima Júlio Dinis de uma sensibilidade pré-realista, embora sua visão ainda seja marcada pela conciliação e por certo idealismo moral.
Tomás Ribeiro também pode ser associado à fase final do Romantismo português. Sua obra poética valorizou o lirismo, o patriotismo e a musicalidade. Entre seus textos mais conhecidos está "D. Jaime", poema narrativo que obteve grande repercussão em sua época. Sua escrita revela permanência de elementos românticos, como a emoção, o nacionalismo e o gosto pela narrativa em versos.
Bulhão Pato foi outro autor ligado ao final do Romantismo. Poeta, memorialista e prosador, cultivou uma literatura marcada por lirismo, descrições da vida cotidiana, recordações pessoais e sensibilidade afetiva. Sua obra representa uma fase em que o Romantismo já não possuía o mesmo vigor inovador inicial, mas continuava presente como forma de expressão sentimental e cultural.
A terceira geração também deve ser compreendida em relação à crise do próprio Romantismo. Em 1865, a Questão Coimbrã colocou em confronto escritores ligados ao gosto romântico tradicional e jovens intelectuais defensores de uma literatura mais crítica e renovadora. Esse debate anunciou a passagem para o Realismo, que ganharia força com autores como Eça de Queirós, Antero de Quental e outros integrantes da Geração de 70.
Síntese comparativa das três gerações românticas portuguesas
A primeira geração romântica portuguesa foi marcada pelo nacionalismo, pelo Liberalismo, pelo romance histórico e pela valorização da Idade Média. Seus principais representantes foram Almeida Garrett, Alexandre Herculano e António Feliciano de Castilho. Suas obras contribuíram para renovar a literatura portuguesa e para construir uma consciência nacional moderna.
A segunda geração, chamada ultrarromântica, aprofundou o sentimentalismo, o subjetivismo, o pessimismo, a idealização amorosa e o gosto pela morte. Seus principais nomes foram Camilo Castelo Branco, Soares de Passos e João de Deus. Essa fase deu grande destaque ao sofrimento individual, aos amores impossíveis e aos conflitos emocionais intensos.
A terceira geração apresentou maior equilíbrio e iniciou a transição para uma literatura mais crítica e observadora da sociedade. Júlio Dinis foi seu principal representante, acompanhado por autores como Tomás Ribeiro e Bulhão Pato. Essa fase conservou elementos românticos, mas já apontava para o Realismo, principalmente pela atenção aos costumes, às relações sociais e ao cotidiano.
Conclusão
As gerações do Romantismo em Portugal revelam a evolução de um movimento que começou ligado à renovação nacional e política, aprofundou-se na expressão subjetiva dos sentimentos e terminou abrindo caminho para uma literatura mais crítica e social. A primeira geração buscou reconstruir a identidade portuguesa por meio da história e da defesa liberal; a segunda transformou o sofrimento amoroso e a melancolia em temas centrais; a terceira suavizou os excessos sentimentais e aproximou a literatura da observação da realidade.
O Romantismo português foi, portanto, mais do que uma escola literária. Ele expressou as mudanças de Portugal no século XIX, dialogou com as disputas políticas de seu tempo, valorizou a memória nacional e colocou o indivíduo, seus sentimentos e seus conflitos no centro da criação literária. Suas obras continuam importantes para compreender a formação da literatura portuguesa moderna e a passagem entre a tradição clássica e as tendências realistas que surgiriam na segunda metade do século XIX.
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| Infográfico didático sobre as Gerações do Romantismo em Portugal |
Por Elaine Barbosa de Souza
Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Atualizado em 15/06/2026
Fontes de referência:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo_em_Portugal
FRANCHETTI, Paulo. Estudos da Literatura Brasileira e Portuguesa. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
SARAÍVA, Antônio José. Iniciação à Literatura Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Vídeo indicado no YouTube:
- Romantismo em Portugal - Literatura - Ensino Médio (Canal Futura)