Quem foi
Getúlio Dornelles Vargas foi um advogado e político brasileiro que governou o Brasil em diferentes períodos entre 1930 e 1954. Nascido no Rio Grande do Sul, tornou-se uma das figuras mais influentes e controversas da História política brasileira do século XX. Sua trajetória esteve associada à centralização do Estado, à industrialização, à criação de leis trabalhistas e à ampliação da participação do governo federal na economia.
Ao longo de sua vida política, Vargas apresentou diferentes formas de atuação. Chegou ao poder em 1930 por meio de um movimento armado, governou constitucionalmente entre 1934 e 1937, implantou a ditadura do Estado Novo e, anos depois, retornou à Presidência pelo voto direto. Essa trajetória fez com que sua imagem fosse interpretada de maneiras distintas: para alguns setores, foi o governante que modernizou o país e ampliou os direitos dos trabalhadores; para outros, foi um líder autoritário que limitou as liberdades políticas e utilizou a propaganda estatal para fortalecer seu poder.
Biografia
Getúlio Dornelles Vargas nasceu em 19 de abril de 1882, na cidade de São Borja, no Rio Grande do Sul. Era filho de Manuel do Nascimento Vargas, militar, fazendeiro e político regional, e de Cândida Dornelles Vargas. Sua família possuía influência econômica e política na região da fronteira gaúcha com a Argentina.
Durante a juventude, Vargas iniciou uma carreira militar, mas abandonou o Exército após um desentendimento ocorrido na Escola Preparatória e de Tática de Rio Pardo. Posteriormente, ingressou na Faculdade de Direito de Porto Alegre, formando-se em 1907. Nesse período, aproximou-se do Partido Republicano Rio-Grandense, organização política que controlava o governo do Rio Grande do Sul e defendia princípios positivistas, como a valorização da ordem, da autoridade estatal e da modernização econômica.
Sua carreira política começou como deputado estadual no Rio Grande do Sul, cargo para o qual foi eleito em 1909. Mais tarde, tornou-se deputado federal e passou a atuar no cenário político nacional. Entre 1926 e 1927, ocupou o Ministério da Fazenda durante o governo do presidente Washington Luís.
Em 1928, Vargas assumiu o governo do Rio Grande do Sul. Sua administração estadual foi marcada pela tentativa de conciliar diferentes grupos políticos e econômicos. Essa capacidade de negociação contribuiu para que ele fosse escolhido como candidato à Presidência da República pela Aliança Liberal, coligação formada principalmente por setores políticos do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e da Paraíba.
Nas eleições presidenciais de março de 1930, Vargas foi derrotado pelo candidato governista Júlio Prestes. Os integrantes da Aliança Liberal denunciaram fraudes eleitorais, prática comum durante a Primeira República. A crise política aumentou após o assassinato de João Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Vargas, ocorrido em julho de 1930. Embora o crime estivesse relacionado a disputas políticas locais da Paraíba, sua morte foi utilizada como elemento de mobilização contra o governo federal.
Em outubro de 1930, teve início a Revolução de 1930, movimento político-militar que derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes. Uma junta militar assumiu temporariamente o governo e, em 3 de novembro de 1930, entregou o poder a Getúlio Vargas. Esse acontecimento encerrou a Primeira República, período iniciado em 1889, e marcou o começo de uma nova etapa na História brasileira.
Vargas permaneceu no poder até 1945, governando inicialmente de forma provisória, depois constitucionalmente e, a partir de 1937, como ditador. Durante esses quinze anos, promoveu mudanças na estrutura administrativa do país, fortaleceu o governo federal, incentivou a industrialização e criou uma ampla legislação trabalhista.
Deposto pelos militares em outubro de 1945, Vargas não abandonou a vida política. Foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul e deputado federal por vários estados. Nas eleições presidenciais de 1950, apresentou-se como candidato pelo Partido Trabalhista Brasileiro e venceu pelo voto direto, retornando à Presidência em 31 de janeiro de 1951.
Seu segundo governo enfrentou forte oposição política, dificuldades econômicas, aumento da inflação e conflitos entre grupos nacionalistas e setores favoráveis à maior participação do capital estrangeiro na economia. A crise agravou-se em agosto de 1954, após um atentado contra o jornalista e político Carlos Lacerda, um dos principais opositores de Vargas. O episódio ficou conhecido como Atentado da Rua Tonelero.
As investigações revelaram o envolvimento de integrantes da guarda pessoal do presidente, aumentando as pressões por sua renúncia. Na madrugada de 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro no peito. Antes de morrer, deixou uma carta-testamento na qual apresentou sua morte como um sacrifício em defesa dos trabalhadores, da soberania nacional e de seu projeto político.
A notícia de seu suicídio provocou intensa comoção popular. Manifestações ocorreram em várias cidades brasileiras, e jornais, rádios e sedes de partidos oposicionistas foram atacados. A morte de Vargas encerrou sua trajetória pessoal, mas não eliminou sua influência sobre a política brasileira das décadas seguintes.
Períodos de governo: economia, política e realizações
1. Governo Provisório (1930–1934)
O Governo Provisório teve início em 3 de novembro de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o poder após a vitória da Revolução de 1930. A nova administração representou o enfraquecimento das antigas oligarquias estaduais, especialmente das elites políticas de São Paulo e Minas Gerais, que haviam exercido grande influência durante a Primeira República.
Uma das primeiras medidas de Vargas foi dissolver o Congresso Nacional, as assembleias estaduais e as câmaras municipais. A Constituição de 1891 deixou de orientar efetivamente a organização política do país, e o presidente passou a governar por meio de decretos. Os governadores estaduais foram substituídos por interventores nomeados pelo governo federal, muitos deles ligados ao movimento tenentista.
A centralização política provocou resistência em São Paulo. As elites paulistas exigiam maior autonomia para o estado, a nomeação de um interventor civil e paulista e a convocação de uma Assembleia Constituinte. Em 9 de julho de 1932, teve início a Revolução Constitucionalista, conflito armado no qual forças paulistas enfrentaram tropas do governo federal.
Militarmente derrotado em outubro de 1932, o movimento paulista contribuiu para acelerar o processo de constitucionalização do país. Em 1933, foram realizadas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, com a participação feminina no processo eleitoral. O voto feminino havia sido reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932, que também instituiu o voto secreto e criou a Justiça Eleitoral.
Durante esse período, Vargas criou o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, responsável por regulamentar as relações entre trabalhadores e empregadores. Foram estabelecidas medidas como a organização dos sindicatos sob controle estatal, a regulamentação do trabalho feminino e infantil e a criação da carteira profissional.
Em 16 de julho de 1934, foi promulgada uma nova Constituição. O documento estabeleceu direitos trabalhistas, ensino primário gratuito e obrigatório, voto secreto e participação política das mulheres. No dia seguinte, Vargas foi eleito presidente de forma indireta pelos membros da Assembleia Nacional Constituinte.
2. Governo Constitucional (1934–1937)
O Governo Constitucional começou em julho de 1934, após a eleição indireta de Getúlio Vargas. Apesar da existência de uma nova Constituição, o período foi marcado por forte instabilidade política, radicalização ideológica e crescimento de movimentos inspirados por experiências políticas europeias.
No campo da extrema-direita, destacou-se a Ação Integralista Brasileira, fundada em 1932 e liderada por Plínio Salgado. Os integralistas defendiam um Estado autoritário, nacionalista, anticomunista e corporativista. Utilizavam uniformes verdes, símbolos próprios e organizavam manifestações públicas de caráter militarizado.
Em oposição ao integralismo e ao governo Vargas, foi criada em 1935 a Aliança Nacional Libertadora. Formada por comunistas, socialistas, antigos tenentes e outros grupos de esquerda, a organização defendia reformas sociais, o combate ao imperialismo e a suspensão do pagamento da dívida externa. Seu presidente de honra era Luís Carlos Prestes, antigo líder tenentista que havia se aproximado do comunismo.
Em julho de 1935, o governo determinou o fechamento da Aliança Nacional Libertadora. Em novembro do mesmo ano, setores militares ligados ao Partido Comunista Brasileiro organizaram levantes em Natal, Recife e Rio de Janeiro. O movimento, denominado pelos participantes de Levante Comunista de 1935, tornou-se conhecido por seus adversários como Intentona Comunista.
A revolta foi rapidamente derrotada, mas Vargas utilizou o episódio para ampliar a repressão política. O governo decretou estado de sítio, prendeu opositores, perseguiu comunistas e fortaleceu os órgãos de segurança. Luís Carlos Prestes e sua companheira, Olga Benário, foram presos em 1936. Olga, que era alemã e judia, foi deportada para a Alemanha nazista, onde foi assassinada em 1942.
A Constituição determinava a realização de eleições presidenciais em 1938, e Vargas não poderia concorrer a um novo mandato consecutivo. Entretanto, setores do governo começaram a preparar a continuidade do presidente no poder. Em setembro de 1937, foi divulgado o Plano Cohen, documento falso que descrevia uma suposta conspiração comunista para tomar o governo brasileiro.
A falsa ameaça comunista foi utilizada para criar um ambiente de medo e justificar medidas autoritárias. Em 10 de novembro de 1937, Vargas fechou o Congresso Nacional, cancelou as eleições, extinguiu os partidos políticos e anunciou uma nova Constituição. Começava, assim, o Estado Novo.
3. Estado Novo (1937–1945)
O Estado Novo foi uma ditadura centralizadora implantada por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937. O regime recebeu influência de experiências autoritárias europeias e adotou características nacionalistas, corporativistas e anticomunistas. A Constituição de 1937, elaborada pelo jurista Francisco Campos, ampliou os poderes presidenciais e restringiu os direitos políticos.
Durante o Estado Novo, o Congresso Nacional permaneceu fechado, as eleições presidenciais foram suspensas e os partidos políticos foram proibidos. Os estados continuaram administrados por interventores nomeados pelo presidente, fortalecendo o controle do governo federal sobre as diferentes regiões do país.
A repressão aos opositores foi conduzida principalmente pela polícia política. Comunistas, liberais, sindicalistas independentes, intelectuais e outros críticos do regime foram presos, perseguidos ou exilados. Em 1938, antigos integrantes da Ação Integralista Brasileira tentaram derrubar Vargas após a proibição dos partidos políticos. O levante fracassou e seus participantes também passaram a ser perseguidos.
A censura e a propaganda oficial ficaram sob a responsabilidade do Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939. O DIP controlava jornais, revistas, emissoras de rádio, produções cinematográficas e manifestações culturais. Também divulgava uma imagem positiva do presidente, apresentado como defensor da unidade nacional e protetor dos trabalhadores.
A política econômica do período priorizou a industrialização e a participação direta do Estado em setores considerados estratégicos. O governo criou o Conselho Nacional do Petróleo, em 1938, a Companhia Siderúrgica Nacional, em 1941, a Companhia Vale do Rio Doce, em 1942, e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, em 1945.
A construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, foi especialmente importante para o desenvolvimento da indústria de base. A produção de aço favoreceu setores como a construção civil, a fabricação de máquinas, a indústria automobilística e a produção de equipamentos militares.
No campo trabalhista, o Estado Novo ampliou e sistematizou leis que vinham sendo criadas desde o início da década de 1930. Em 1940, foi instituído o salário mínimo. Três anos depois, em 1º de maio de 1943, foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho, conhecida como CLT.
A CLT reuniu normas relacionadas à jornada de trabalho, às férias remuneradas, ao descanso semanal, à proteção do trabalho feminino e à organização sindical. Apesar desses avanços, os sindicatos permaneceram subordinados ao Ministério do Trabalho, e as greves foram proibidas. Os trabalhadores rurais não receberam, naquele momento, os mesmos direitos assegurados aos trabalhadores urbanos.
Na política externa, o governo brasileiro procurou inicialmente manter relações tanto com os Estados Unidos quanto com a Alemanha. Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, Vargas negociou apoio econômico e militar com o governo norte-americano. Em 1942, após ataques de submarinos alemães a navios brasileiros, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.
Entre 1944 e 1945, soldados da Força Expedicionária Brasileira combateram as forças do Eixo na Itália. A participação do Brasil ao lado dos países aliados criou uma contradição política, pois o país combatia ditaduras no exterior enquanto mantinha um regime autoritário internamente.
Com a derrota do nazifascismo e o crescimento das pressões pela redemocratização, Vargas anunciou eleições e permitiu a reorganização partidária. Surgiram partidos como o Partido Social Democrático, a União Democrática Nacional e o Partido Trabalhista Brasileiro.
Embora o movimento queremista defendesse a permanência de Vargas até a realização de uma Assembleia Constituinte, setores militares desconfiavam de suas intenções políticas. Em 29 de outubro de 1945, Vargas foi deposto pelas Forças Armadas. O Estado Novo chegou ao fim e iniciou-se um novo período democrático no Brasil.
4. Segundo Governo Vargas (1951–1954)
Após ser afastado do poder em 1945, Vargas preservou sua influência política e passou a atuar como senador. Nas eleições presidenciais de 3 de outubro de 1950, candidatou-se pelo Partido Trabalhista Brasileiro. Com uma campanha baseada no nacionalismo econômico e na defesa dos trabalhadores, venceu a disputa com cerca de 48% dos votos válidos.
Getúlio Vargas tomou posse em 31 de janeiro de 1951. Diferentemente dos períodos anteriores, seu novo governo ocorreu sob uma Constituição democrática, com Congresso em funcionamento, liberdade partidária e atuação de uma imprensa de oposição. Essa situação limitava os poderes do presidente e exigia maior negociação política.
Na economia, Vargas retomou uma política nacionalista e desenvolvimentista. Defendia a intervenção do Estado em setores estratégicos, a industrialização e a limitação da remessa de lucros das empresas estrangeiras para o exterior. Essas medidas provocaram resistência de empresários, investidores estrangeiros e grupos políticos liberais.
Um dos principais debates do período envolveu a exploração do petróleo. A campanha “O petróleo é nosso” defendia o monopólio estatal sobre a pesquisa, a extração, o refino e o transporte do recurso. Em 3 de outubro de 1953, Vargas sancionou a lei que criou a Petrobras, empresa estatal responsável pelo setor petrolífero.
Seu governo também propôs a criação da Eletrobras, destinada a organizar e ampliar o setor de energia elétrica. O projeto encontrou forte oposição no Congresso e somente foi aprovado em 1961, durante o governo de João Goulart.
Na área trabalhista, Vargas procurou fortalecer sua relação com os trabalhadores urbanos. Em 1953, nomeou João Goulart para o Ministério do Trabalho. No ano seguinte, o governo anunciou um reajuste de 100% no salário mínimo, medida defendida pelo ministro para compensar parte das perdas provocadas pela inflação.
O aumento do salário mínimo provocou críticas de empresários, políticos oposicionistas e setores das Forças Armadas. O Manifesto dos Coronéis, divulgado em fevereiro de 1954, acusava o governo de promover uma política trabalhista considerada prejudicial à hierarquia militar e à estabilidade econômica. Diante das pressões, João Goulart deixou o Ministério do Trabalho.
A União Democrática Nacional tornou-se a principal força de oposição ao governo. Um de seus integrantes mais influentes era o jornalista Carlos Lacerda, que utilizava o jornal “Tribuna da Imprensa” para acusar Vargas de corrupção, autoritarismo e aproximação com o comunismo.
Na madrugada de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda sofreu um atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O jornalista foi ferido, e o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que o acompanhava, morreu. As investigações apontaram o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas.
O episódio aprofundou a crise política. Oficiais da Aeronáutica conduziram uma investigação paralela, conhecida como República do Galeão, e setores militares passaram a exigir a renúncia do presidente. Vargas declarou não ter conhecimento prévio do atentado, mas sua posição política tornou-se cada vez mais frágil.
Na madrugada de 24 de agosto de 1954, após uma reunião ministerial em que se discutiu seu afastamento, Vargas recolheu-se a seus aposentos no Palácio do Catete e suicidou-se. A carta-testamento atribuída ao presidente apresentou sua morte como uma resposta às pressões de grupos nacionais e estrangeiros contrários à sua política.
O suicídio provocou grande mobilização popular e modificou o cenário político do país. A oposição foi temporariamente enfraquecida, e a figura de Vargas passou a ser associada de forma ainda mais intensa à defesa dos trabalhadores e do nacionalismo econômico.
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Foto oficial de Getúlio Vargas (1951): início do segundo mandato presidencial. |
As contradições do governo Vargas
A trajetória política de Getúlio Vargas foi marcada pela combinação entre modernização econômica, ampliação da legislação social e práticas autoritárias. Seus governos fortaleceram o Estado nacional e contribuíram para a transformação de uma economia predominantemente agrária em uma sociedade mais urbana e industrial. Ao mesmo tempo, esse processo ocorreu por meio da centralização política, da redução da autonomia dos estados e, sobretudo durante o Estado Novo (1937–1945), da supressão das liberdades democráticas.
Entre os aspectos positivos, destacou-se o incentivo à industrialização e à criação de empresas ligadas aos setores estratégicos. A Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e outras instituições estatais favoreceram a formação de uma indústria de base e diminuíram parcialmente a dependência brasileira de produtos importados. No entanto, a industrialização não eliminou as desigualdades regionais e sociais. Os investimentos concentraram-se principalmente nas áreas urbanas do Centro-Sul, enquanto grande parte da população rural permaneceu em condições precárias e com acesso limitado às políticas públicas.
A legislação trabalhista também expressou uma importante contradição. A criação do salário mínimo e a Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada em 1943, asseguraram direitos aos trabalhadores urbanos, como férias remuneradas, limitação da jornada de trabalho e descanso semanal. Contudo, esses benefícios não foram estendidos de forma equivalente aos trabalhadores rurais. Os sindicatos, embora reconhecidos pelo Estado, permaneceram submetidos ao Ministério do Trabalho, e as greves foram proibidas durante o Estado Novo. Dessa forma, a concessão de direitos esteve acompanhada por mecanismos de controle sobre a organização política dos trabalhadores.
No campo político, Vargas enfraqueceu o poder das antigas oligarquias estaduais e ampliou a capacidade administrativa do governo federal. Essa centralização contribuiu para a criação de instituições nacionais e para a formulação de políticas econômicas mais articuladas. Por outro lado, o fortalecimento do Poder Executivo favoreceu práticas autoritárias. Durante o Estado Novo, o Congresso Nacional foi fechado, os partidos políticos foram extintos, as eleições foram suspensas e os opositores foram perseguidos, presos ou exilados. A censura exercida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda limitou a liberdade de expressão e difundiu uma imagem idealizada do presidente.
Outra contradição esteve presente na política externa durante a Segunda Guerra Mundial. O Brasil participou do conflito ao lado dos Aliados e enviou soldados da Força Expedicionária Brasileira para combater regimes fascistas na Europa. Entretanto, internamente, o país continuava submetido a uma ditadura inspirada em princípios autoritários e corporativistas. Essa incoerência fortaleceu as pressões pela redemocratização e contribuiu para a deposição de Vargas em outubro de 1945.
Os governos de Getúlio Vargas não podem ser interpretados apenas como um período de progresso social e econômico nem somente como uma experiência autoritária. Houve avanços importantes na industrialização, na organização do Estado e na criação de direitos trabalhistas, mas também ocorreram repressão política, censura e exclusão de amplos setores da população. Uma análise crítica e imparcial deve reconhecer que a modernização promovida por Vargas esteve profundamente ligada à centralização do poder e ao controle político da sociedade.
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Getúlio Vargas desfilando, entre o povo de Vitória (ES), em 1951 (fonte: Arquivo Nacional). |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 26/07/2026
Livro indicado:
SKIDMORE, Thomas E. Brasil - de Getúlio a Castelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
Fontes de referência:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Get%C3%BAlio_Vargas
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
NAPOLITANO, Marcos. História do Brasil República – da queda da Monarquia ao fim do Estado Novo. São Paulo: Contexto, 2016.
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- Getúlio Dornelles Vargas - Biografia - Canal Enciclopédia de História