O que é
O jiu-jitsu é uma arte marcial baseada principalmente em técnicas de domínio, imobilização, projeção, estrangulamento e aplicação de chaves nas articulações. Diferentemente de modalidades centradas em socos e chutes, sua prática valoriza o controle do adversário e o uso eficiente de alavancas, equilíbrio e posicionamento corporal. Dessa maneira, um praticante pode enfrentar oponentes fisicamente mais fortes utilizando conhecimentos técnicos em vez de depender exclusivamente da força muscular.
Nas competições esportivas, grande parte dos confrontos ocorre no solo. O objetivo pode ser obter pontos por posições de domínio ou conseguir a finalização do adversário por meio de técnicas permitidas pelas regras. Atualmente, existem modalidades praticadas com quimono, conhecido como gi, e sem quimono, chamada normalmente de no-gi.
Origem
As origens do jiu-jitsu estão relacionadas às antigas artes de combate desenvolvidas no Japão. Durante o período feudal japonês, os guerreiros samurais utilizavam diferentes técnicas para lutar armados e desarmados. Em situações nas quais não era possível empregar espadas ou outras armas, técnicas de agarramento, projeções, imobilizações e ataques às articulações podiam ser utilizadas para controlar ou derrotar um adversário.
Diversas escolas japonesas, conhecidas como ryū, desenvolveram seus próprios sistemas de combate ao longo dos séculos. Por isso, não existiu inicialmente uma única modalidade chamada jiu-jitsu com um conjunto universal de regras. O termo japonês jūjutsu passou a ser empregado para designar diferentes métodos baseados no princípio de utilizar técnica, flexibilidade e adaptação contra a força do adversário.
Com o início da Era Meiji, em 1868, o Japão passou por profundas transformações políticas, sociais e militares. O fim da classe dos samurais reduziu a função militar tradicional dessas escolas. Algumas desapareceram, enquanto outras adaptaram suas técnicas para a defesa pessoal, a educação física e a prática esportiva.
História e evolução do Jiu-Jitsu
Uma transformação decisiva ocorreu no final do século XIX. O educador japonês Jigoro Kano estudou diferentes escolas de jujutsu e reorganizou parte de suas técnicas, criando o judô em 1882. Seu sistema procurava tornar o treinamento mais seguro e adequado à formação física e moral, eliminando ou restringindo técnicas consideradas excessivamente perigosas.
O Kodokan, escola fundada por Kano em Tóquio, tornou-se um importante centro de formação de lutadores. Seus praticantes passaram a realizar demonstrações e competições no Japão e em outros países. Nesse processo, técnicas de projeção, controle corporal e luta no solo foram difundidas internacionalmente.
Durante o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, lutadores japoneses viajaram pela Europa, pelas Américas e por outras regiões realizando demonstrações e desafios. Naquele período, os termos judô e jiu-jitsu nem sempre eram utilizados com a precisão atual. Por esse motivo, vários praticantes ligados ao judô Kodokan também eram apresentados no exterior como lutadores de jiu-jitsu.
Ao longo do século XX, diferentes vertentes passaram a seguir caminhos próprios. O judô adquiriu regulamentação esportiva internacional e entrou no programa dos Jogos Olímpicos em 1964. Paralelamente, sistemas tradicionais japoneses de jujutsu continuaram sendo praticados, enquanto no Brasil surgiu uma modalidade com grande ênfase na luta de solo, no controle posicional e nas finalizações.
A expansão internacional do jiu-jitsu brasileiro acelerou-se principalmente a partir das últimas décadas do século XX. Academias foram abertas em vários países e competições específicas passaram a reunir atletas profissionais e amadores. A eficiência de suas técnicas também teve grande influência sobre o desenvolvimento das artes marciais mistas, o MMA.
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| Treinamento de jiu-jitsu no Japão em 1920 |
História do Jiu-Jitsu no Brasil
A introdução do jiu-jitsu que daria origem à vertente brasileira está fortemente associada ao japonês Mitsuyo Maeda, também conhecido como Conde Koma. Discípulo do judô Kodokan, Maeda viajou por diversos países realizando demonstrações e combates antes de chegar ao Brasil na década de 1910. Estabelecido por algum tempo em Belém, no Pará, participou da divulgação das técnicas japonesas de luta.
Nesse contexto, Carlos Gracie teve contato com os conhecimentos ensinados por Maeda. Durante a década de 1920, Carlos e seus irmãos passaram a desenvolver e divulgar a modalidade, especialmente no Rio de Janeiro. A família Gracie tornou-se uma das principais responsáveis pela adaptação e popularização das técnicas que posteriormente seriam conhecidas internacionalmente como Brazilian Jiu-Jitsu, ou BJJ.
Hélio Gracie desempenhou papel relevante nessa evolução. A prática desenvolvida no ambiente da família passou a valorizar intensamente o uso de alavancas, posições de controle e técnicas que permitissem enfrentar adversários maiores. O combate no solo ganhou importância especial, incluindo estrangulamentos e chaves destinadas a obrigar o oponente a desistir.
Outro elemento marcante foram os chamados desafios entre estilos. Lutadores ligados ao jiu-jitsu enfrentavam praticantes de boxe, luta livre, capoeira, judô e outras modalidades. Esses confrontos ajudaram a divulgar a eficácia do sistema de combate e estiveram relacionados ao desenvolvimento das competições de vale-tudo no Brasil durante o século XX.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 23 de outubro de 1951, quando Hélio Gracie enfrentou o judoca japonês Masahiko Kimura no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Kimura venceu o combate utilizando uma chave de braço conhecida no judô como ude-garami. Posteriormente, essa técnica passou a ser popularmente chamada de kimura no jiu-jitsu brasileiro.
A partir da segunda metade do século XX, outras famílias, professores e equipes também tiveram participação decisiva na expansão e evolução técnica da modalidade. Novas academias surgiram, os campeonatos ganharam maior organização e desenvolveram-se sistemas específicos de graduação, pontuação e categorias de peso.
A projeção mundial aumentou consideravelmente na década de 1990. Em 1993, Royce Gracie venceu a primeira edição do Ultimate Fighting Championship, nos Estados Unidos, utilizando principalmente técnicas de jiu-jitsu contra adversários de diferentes modalidades. Suas vitórias mostraram para um público internacional a eficiência da luta de solo e contribuíram para ampliar rapidamente o número de praticantes.
Desde então, o Brasil tornou-se uma das principais referências mundiais da modalidade. O jiu-jitsu brasileiro espalhou-se por todos os continentes, ganhou campeonatos internacionais e passou a exercer forte influência no treinamento de atletas de MMA. Embora tenha raízes nas artes marciais japonesas, sua evolução no Brasil criou características próprias, fazendo do Brazilian Jiu-Jitsu uma modalidade reconhecida mundialmente.
Curiosidades históricas sobre o Jiu-Jitsu
• O significado do nome: a palavra japonesa jūjutsu costuma ser traduzida como “arte suave” ou “técnica suave”. O conceito está relacionado ao princípio de utilizar técnica, equilíbrio e alavancas para superar a força empregada pelo adversário.
• Mitsuyo Maeda era conhecido como Conde Koma: o japonês que teve papel fundamental na introdução das técnicas que influenciaram o jiu-jitsu brasileiro percorreu diversos países realizando demonstrações e combates antes de se estabelecer no Brasil.
• A técnica “kimura” recebeu o nome de um adversário de Hélio Gracie: após Masahiko Kimura utilizar uma chave de braço para vencer Hélio Gracie em 1951, essa técnica passou a ser conhecida entre praticantes brasileiros pelo sobrenome do judoca japonês.
• Os desafios ajudaram a popularizar a modalidade: durante várias décadas do século XX, integrantes da família Gracie e outros praticantes enfrentaram representantes de diferentes artes marciais. Esses confrontos tiveram grande importância na divulgação do jiu-jitsu e no desenvolvimento posterior do vale-tudo brasileiro.
• O UFC ajudou na expansão mundial do jiu-jitsu brasileiro: em 1993, Royce Gracie venceu o primeiro torneio do Ultimate Fighting Championship. Mesmo enfrentando adversários geralmente maiores, utilizou técnicas de controle e finalização no solo, contribuindo para tornar o Brazilian Jiu-Jitsu conhecido internacionalmente.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 20/08/2026
Fontes:
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BRAVO, Eddie. Jiu-Jitsu sem mistérios. São Paulo: Madras, 2009.
Vídeo indicado no YouTube:
Ju-Jutsu a Origem do Jiu-Jitsu no Japão (Canal Histórias do Extremo Oriente)