Quem eram os bárbaros?
Os povos bárbaros eram grupos que viviam fora das fronteiras do Império Romano e que não compartilhavam plenamente a língua, os costumes e as instituições políticas romanas. Entre esses povos estavam os visigodos, ostrogodos, vândalos, francos, saxões, anglos, hunos, lombardos e suevos. Entre os séculos IV e V, muitos desses grupos migraram para territórios romanos, motivados por pressões militares, busca de terras, alianças políticas e conflitos internos. Sua presença contribuiu para a transformação do Império Romano do Ocidente e para a formação de diversos reinos medievais na Europa.
Por que eram chamados de bárbaros?
Os romanos usavam a palavra “bárbaro” para todos aqueles que habitavam fora das fronteiras do império e que não falavam sua língua oficial: o latim. A convivência pacífica entre eles durou até o século IV, quando uma horda de hunos pressionou outros povos bárbaros nas fronteiras do Império Romano. No século IV e no seguinte, ocorreram diversas invasões germânicas, muitas vezes violentas, que acabaram por derrubar o Império Romano do Ocidente. Além da chegada dos hunos, podemos citar como outros motivos que ocasionaram a invasão dos bárbaros a busca por riquezas, por solos férteis e climas agradáveis.
Os principais povos bárbaros eram:
• Alanos: eram um povo de origem iraniana, associado às regiões do nordeste do Cáucaso e das estepes próximas ao mar Negro e ao mar Cáspio. Eram conhecidos por sua habilidade como cavaleiros e guerreiros. Entre os séculos IV e V, deslocaram-se para áreas do Império Romano, especialmente a Hispânia e o norte da África. Em alguns momentos, atuaram em aliança com outros povos, como os vândalos e os suevos.
• Anglos: eram povos germânicos originários da região da atual Alemanha setentrional e da península da Jutlândia. No século V, migraram para as Ilhas Britânicas, onde contribuíram para a formação da Inglaterra anglo-saxônica. Seu nome está relacionado à origem do termo “England”, que significa “terra dos anglos”.
• Saxões: eram povos germânicos que viviam em áreas do norte da atual Alemanha e regiões próximas ao mar do Norte. Participaram das migrações para a Britânia no século V, juntamente com anglos e jutos. Sua presença foi importante para a formação de reinos anglo-saxões nas Ilhas Britânicas, como Wessex, Essex e Sussex.
• Jutos: eram povos germânicos originários provavelmente da península da Jutlândia, região que corresponde a partes da atual Dinamarca e do norte da Alemanha. Participaram das migrações para a Britânia no século V, ao lado de anglos e saxões. Estabeleceram-se principalmente em áreas como Kent e na ilha de Wight.
• Francos: eram povos germânicos que se estabeleceram na região da Gália, território que corresponde em grande parte à atual França. Fundaram o Reino Franco, que se tornou uma das principais potências da Europa Ocidental após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476. Com Clóvis, no final do século V, os francos consolidaram seu poder e adotaram o cristianismo, o que fortaleceu sua relação com a Igreja.
• Frísios: eram povos germânicos que habitavam regiões costeiras do mar do Norte, especialmente áreas das atuais Holanda, Alemanha e Dinamarca. Tiveram contato com anglos, saxões e outros povos germânicos. Alguns grupos participaram das migrações para as Ilhas Britânicas, enquanto outros permaneceram no continente, ligados à navegação, ao comércio e à vida costeira.
• Lombardos: eram povos germânicos que se deslocaram para a Península Itálica no século VI. Em 568, invadiram o norte da Itália e fundaram um reino lombardo, com capital em Pavia. Sua presença marcou profundamente a história italiana, especialmente na região que passou a ser conhecida como Lombardia.
• Burgúndios: eram povos germânicos que se estabeleceram na região da Gália, especialmente no sudeste da atual França e em áreas próximas aos Alpes. Fundaram o Reino Burgúndio, que teve importância na formação política da Europa medieval. Posteriormente, seus territórios foram incorporados ao Reino Franco.
• Visigodos: eram um ramo dos godos que inicialmente circularam por regiões próximas ao Danúbio e ao mar Negro. No século V, entraram em territórios romanos e chegaram a saquear Roma em 410, sob a liderança de Alarico. Depois, estabeleceram-se na Gália e, principalmente, na Península Ibérica, onde formaram o Reino Visigodo de Toledo.
• Ostrogodos: eram outro ramo dos godos, associados inicialmente às regiões do leste europeu. No final do século V, liderados por Teodorico, conquistaram a Itália e fundaram o Reino Ostrogodo, com capital em Ravena. Procuraram preservar parte da administração romana, combinando tradições germânicas e instituições romanas.
• Suevos: eram povos germânicos que participaram das migrações para o interior do Império Romano no início do século V. Instalaram-se na Península Ibérica, especialmente na região da Gallaecia, correspondente a áreas do atual noroeste da Espanha e norte de Portugal. Fundaram um dos primeiros reinos germânicos da Europa Ocidental.
• Vândalos: eram povos germânicos que atravessaram a Gália e a Hispânia antes de se estabelecerem no norte da África, no século V. Fundaram um reino com capital em Cartago e controlaram importantes rotas marítimas do Mediterrâneo. Em 455, saquearam Roma, episódio que reforçou sua imagem negativa nas fontes romanas.
• Hunos: eram povos nômades de origem asiática, vindos das estepes da Ásia Central. Destacavam-se pela cavalaria rápida e pelas estratégias militares de grande mobilidade. Sob a liderança de Átila, no século V, pressionaram vários povos germânicos e ameaçaram o Império Romano do Oriente e do Ocidente. Sua expansão contribuiu para intensificar as migrações bárbaras em direção aos territórios romanos.
• Teutões: eram povos germânicos antigos que viviam no centro e no norte da Europa. Ficaram conhecidos pelos conflitos contra Roma no final do século II a.C., especialmente durante as guerras contra cimbros e teutões. Embora anteriores às grandes migrações dos séculos IV e V, são frequentemente associados ao amplo conjunto dos povos germânicos chamados de bárbaros pelos romanos.
• Godos: eram povos germânicos divididos principalmente em visigodos e ostrogodos. Tiveram grande importância nas migrações bárbaras e na formação de reinos germânicos após o enfraquecimento do Império Romano do Ocidente. Sua trajetória revela a intensa relação entre povos germânicos e romanos, incluindo guerras, alianças e processos de integração cultural.
• Celtas: eram povos indo-europeus que ocuparam vastas regiões da Europa antes da expansão romana, incluindo áreas da Gália, Britânia, Irlanda, Península Ibérica e Europa Central. Entre eles estavam os gauleses e os bretões. Muitos celtas foram dominados por Roma, especialmente após a conquista da Gália por Júlio César, entre 58 a.C. e 51 a.C. Apesar disso, conservaram tradições próprias em várias regiões.
• Gauleses: eram povos celtas que habitavam a Gália, região correspondente a grande parte da atual França, Bélgica e áreas vizinhas. Foram conquistados pelos romanos no século I a.C., mas mantiveram forte influência cultural na formação da sociedade galo-romana.
• Bretões: eram povos celtas que viviam na Britânia antes e durante o domínio romano. Após a retirada romana da ilha, no início do século V, enfrentaram a chegada de anglos, saxões e jutos. Parte dos bretões migrou para a Armórica, região que passou a ser conhecida como Bretanha, no atual noroeste da França.
• Cimbros: eram povos germânicos ou possivelmente céltico-germânicos que migraram pela Europa no final do século II a.C. Entraram em conflito com Roma e foram derrotados pelo general romano Caio Mário. Assim como os teutões, são considerados parte dos povos do norte europeu que os romanos classificavam como bárbaros.
• Alamanos: eram uma confederação de povos germânicos que habitava regiões próximas ao rio Reno. Entraram em conflito com Roma e, posteriormente, ocuparam áreas da Europa Central. Seu nome está relacionado à denominação da Alemanha em algumas línguas, como “Allemagne”, em francês.
• Marcomanos: eram povos germânicos estabelecidos na Europa Central, especialmente na região da Boêmia. Tiveram conflitos com o Império Romano durante o governo de Marco Aurélio, no século II. Representam um exemplo dos contatos militares constantes entre Roma e os povos que viviam além das fronteiras imperiais.
• Dácios: eram povos que habitavam a região da Dácia, correspondente principalmente à atual Romênia. Foram conquistados pelo imperador Trajano no início do século II, após as Guerras Dácias. Embora não fossem germânicos, eram considerados bárbaros pelos romanos por viverem fora do padrão cultural romano.
• Sármatas: eram povos de origem iraniana, relacionados às estepes do leste europeu. Eram conhecidos como cavaleiros e guerreiros, com forte tradição militar. Tiveram contatos e conflitos com Roma e influenciaram outros povos das regiões do mar Negro, do Cáucaso e da Europa Oriental.
• Eslavos: eram povos que habitavam regiões da Europa Oriental e Central. Sua maior expansão ocorreu sobretudo a partir dos séculos VI e VII, após o período mais intenso das migrações germânicas. Embora não tenham sido protagonistas diretos da queda do Império Romano do Ocidente, foram importantes na formação histórica e cultural da Europa Oriental e dos Bálcãs.
Vala ressaltar que os povos bárbaros não formavam um único povo, mas um conjunto diverso de grupos com origens, línguas, costumes e trajetórias diferentes. Alguns eram germânicos, como francos, visigodos, ostrogodos, vândalos, anglos e saxões; outros tinham origem celta, iraniana, asiática ou eslava. Suas migrações, conflitos e alianças com Roma contribuíram para o fim do Império Romano do Ocidente e para a formação dos reinos medievais europeus.
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Saque de Roma pelos Vândalos, no ano de 455. |
Economia
A economia dos povos bárbaros variava conforme a região, o clima, o grau de sedentarização e o contato com o Império Romano, mas era geralmente baseada na agricultura, na criação de animais, na caça, na pesca, no artesanato e nas trocas comerciais. Muitos povos germânicos cultivavam cereais, legumes e outros alimentos básicos, além de criarem bois, cavalos, porcos, cabras e ovelhas. A terra era um recurso essencial para a sobrevivência e para o prestígio dos grupos, pois garantia alimentos, pastagens e poder político. Em várias comunidades, a produção era voltada principalmente para o consumo interno, sem grande circulação monetária, embora o comércio com os romanos tenha se tornado importante nas áreas de fronteira.
Com o avanço dos povos bárbaros sobre territórios romanos, sua economia passou por transformações significativas. Ao se estabelecerem em antigas províncias do Império Romano do Ocidente, muitos grupos passaram a ocupar terras agrícolas, controlar rotas comerciais e aproveitar estruturas já existentes, como cidades, estradas, vilas rurais e sistemas de arrecadação. O saque de cidades e propriedades também podia representar uma forma de obtenção de riquezas em períodos de guerra, mas não era a única base econômica desses povos. Com o tempo, a fusão entre práticas germânicas e instituições romanas contribuiu para a ruralização da economia medieval, o fortalecimento da grande propriedade territorial e a valorização da posse da terra como principal fonte de riqueza e poder.
Guerras
As guerras tinham grande importância na vida dos povos bárbaros, especialmente entre os grupos germânicos, pois estavam ligadas à defesa do território, à conquista de novas áreas, à obtenção de riquezas e ao prestígio dos chefes militares. Muitos guerreiros mantinham relações de fidelidade pessoal com seus líderes, recebendo proteção, parte dos saques, armas, cargos ou terras em troca de apoio militar. A coragem, a lealdade e a habilidade em combate eram valores muito respeitados. A guerra também servia para fortalecer a autoridade dos chefes e reis, pois o sucesso militar aumentava seu prestígio diante da comunidade e atraía novos seguidores.
Os conflitos entre povos bárbaros e romanos ocorreram de diferentes formas, incluindo invasões, alianças, migrações armadas e acordos militares. Muitos bárbaros atuaram como soldados auxiliares do exército romano ou como federados, recebendo terras em troca de serviços militares. No entanto, quando os acordos eram rompidos ou quando havia pressão por terras e recursos, surgiam guerras contra o próprio Império. Entre os episódios mais conhecidos estão o saque de Roma pelos visigodos, em 410, o avanço dos hunos sob Átila no século V e o saque de Roma pelos vândalos, em 455. Essas guerras contribuíram para o enfraquecimento do Império Romano do Ocidente e para a formação dos reinos germânicos que marcaram o início da Idade Média europeia.
Características da religião dos bárbaros
Embora cada povo chamado de “bárbaro” possuísse crenças próprias, muitos povos germânicos apresentavam elementos religiosos semelhantes. Antes da conversão ao cristianismo, essas comunidades praticavam religiões politeístas, baseadas na adoração de várias divindades ligadas à natureza, à guerra, à fertilidade, à morte, à proteção do grupo e às forças sobrenaturais. Suas crenças eram transmitidas principalmente por meio da tradição oral, de mitos, rituais, cantos, narrativas heroicas e costumes familiares. A religião fazia parte da vida cotidiana e estava relacionada à guerra, à agricultura, à organização social, à autoridade dos chefes e à preservação da memória dos antepassados.
• Politeísmo: muitos povos germânicos adoravam vários deuses e deusas. Essas divindades eram associadas a fenômenos naturais, à guerra, à fertilidade, ao destino, à sabedoria e à proteção dos guerreiros. Não havia uma religião única para todos os povos bárbaros, mas um conjunto de crenças variadas, com semelhanças entre diferentes grupos.
• Relação com a natureza: as forças naturais tinham grande importância religiosa. Florestas, rios, montanhas, tempestades, ventos, trovões e ciclos agrícolas podiam ser vistos como manifestações sagradas. Alguns rituais eram realizados em espaços naturais considerados sagrados, como bosques, fontes e clareiras.
• Odin: entre povos germânicos do norte da Europa, Odin era uma das divindades mais importantes. Era associado à sabedoria, à guerra, à morte, à magia, à poesia e à liderança. Também era visto como protetor de guerreiros e governantes. Sua figura ganhou destaque especialmente nas tradições nórdicas.
• Thor: era uma divindade ligada ao trovão, à força, à proteção e ao combate contra forças destruidoras. Seu martelo, conhecido como Mjölnir, simbolizava poder e defesa. Thor era muito cultuado por guerreiros, camponeses e comunidades que buscavam proteção contra perigos naturais e inimigos.
• Frey e Freya: eram divindades relacionadas à fertilidade, à prosperidade, à fecundidade, ao amor, à abundância e, em alguns casos, à guerra. Essas figuras demonstram que a religião germânica não se limitava ao mundo militar, mas também envolvia preocupações com colheitas, família, nascimento e continuidade da comunidade.
• Crença na vida após a morte: muitos povos germânicos acreditavam que a morte não representava o fim da existência. Para algumas tradições, os guerreiros mortos em combate poderiam ser levados para um lugar de honra, como o Valhala, onde continuariam ligados à guerra, à festa e à glória. Essa crença reforçava valores como coragem, bravura e honra militar.
• Valorização dos guerreiros: a religião estava muito ligada à cultura guerreira. A coragem em batalha, a lealdade ao chefe e a disposição para defender o grupo eram valores religiosos e sociais. A morte heroica podia ser interpretada como sinal de prestígio e como caminho para uma existência gloriosa após a morte.
• Culto aos antepassados: os povos bárbaros reverenciavam frequentemente os espíritos dos antepassados falecidos. Essa prática reforçava a ligação com a memória familiar, o clã e a tradição do grupo. Os antepassados podiam ser vistos como protetores da comunidade e como referência moral para os vivos.
• Rituais e sacrifícios: algumas práticas religiosas incluíam oferendas de alimentos, animais, armas ou objetos de valor. Em certas sociedades, havia sacrifícios realizados para pedir proteção, vitória militar, boas colheitas ou equilíbrio entre os homens e as forças sobrenaturais. A forma desses rituais variava de acordo com cada povo e região.
• Função dos sacerdotes e líderes religiosos: em algumas comunidades, havia pessoas responsáveis por conduzir rituais, interpretar sinais, preservar mitos e orientar cerimônias religiosas. Em outros casos, o próprio chefe político ou militar podia exercer funções religiosas, reforçando sua autoridade diante do grupo.
• Magia, presságios e adivinhação: muitos povos germânicos acreditavam em sinais enviados pelos deuses ou pelos espíritos. O voo das aves, fenômenos naturais, sonhos, runas e acontecimentos incomuns podiam ser interpretados como presságios. A magia e a adivinhação eram usadas para orientar decisões importantes, como guerras, migrações e alianças.
• Uso de símbolos sagrados: armas, amuletos, animais, árvores e objetos rituais podiam possuir significado religioso. Alguns animais, como lobos, corvos, cavalos e javalis, apareciam em mitos e símbolos associados à força, à guerra, à proteção ou à comunicação com o mundo espiritual.
• Tradição oral: as crenças religiosas eram transmitidas principalmente pela fala, por narrativas míticas, poemas, cantos e histórias de heróis. Como muitos desses povos não possuíam uma escrita religiosa sistemática, grande parte de suas crenças foi registrada posteriormente por autores cristãos, o que exige cuidado na interpretação dessas fontes.
• Conversão ao cristianismo: com a instalação dos povos germânicos nos territórios do antigo Império Romano do Ocidente, muitos passaram por processos de conversão ao cristianismo. Alguns grupos adotaram inicialmente o cristianismo ariano, como visigodos e ostrogodos, enquanto outros se converteram ao cristianismo niceno, como os francos sob Clóvis, no final do século V. Essa conversão aproximou os reinos germânicos da Igreja e contribuiu para a formação da cultura medieval.
• Mistura de crenças: durante a transição para o cristianismo, muitas práticas antigas não desapareceram imediatamente. Em várias regiões, costumes germânicos foram combinados com elementos cristãos, formando práticas religiosas populares marcadas pela continuidade de festas, símbolos, crenças em espíritos, respeito aos antepassados e valorização de lugares sagrados.
As leis
As leis dos povos bárbaros eram baseadas principalmente nos costumes, nas tradições orais e na autoridade dos chefes tribais, sendo transmitidas de geração em geração antes de serem registradas por escrito. Com a formação dos reinos germânicos na Europa Ocidental, muitas dessas normas passaram a ser reunidas em códigos legais, como a Lei Sálica dos francos, a Lei Visigótica e as leis dos burgúndios e lombardos. Em geral, essas leis valorizavam a família, a posse da terra, a fidelidade ao chefe militar e a reparação dos danos por meio de compensações materiais. Em vez de punições aplicadas de forma igual para todos, era comum que a pena variasse conforme a posição social da vítima e do agressor. Muitos conflitos eram resolvidos pelo pagamento do wergeld, uma indenização paga à família da pessoa ofendida ou morta, com o objetivo de evitar vinganças privadas. Com o contato com o mundo romano e com o cristianismo, as leis bárbaras incorporaram elementos do direito romano e da moral cristã, contribuindo para a formação das bases jurídicas da Europa medieval.
Organização social
As formas de organização social dos povos bárbaros variavam de acordo com cada grupo, mas muitos deles se estruturavam em torno da família extensa, do clã e da tribo. Os laços de parentesco eram fundamentais para definir a posição social, os deveres de proteção e as alianças políticas. A sociedade costumava ser liderada por chefes militares ou reis, escolhidos muitas vezes por sua capacidade de liderança, prestígio guerreiro e habilidade para garantir terras, riquezas e segurança ao grupo. A aristocracia guerreira ocupava posição de destaque, pois a força militar era essencial para a defesa, as migrações e as conquistas territoriais. Abaixo dela estavam camponeses livres, artesãos, pastores e pessoas dependentes, que exerciam atividades ligadas à produção agrícola, ao cuidado dos animais e ao abastecimento das comunidades.
A organização social também era marcada por relações de fidelidade pessoal entre guerreiros e chefes. Em muitos povos germânicos, por exemplo, os guerreiros prestavam lealdade a um líder em troca de proteção, prestígio, parte dos saques de guerra e possibilidade de acesso a terras. Essa relação ajudou a fortalecer valores como honra, coragem, lealdade e defesa do grupo. As assembleias de homens livres também tinham importância em algumas sociedades bárbaras, pois nelas eram discutidas decisões militares, conflitos internos e questões jurídicas. Com a instalação desses povos em antigos territórios romanos, suas formas de organização social se misturaram a elementos romanos e cristãos, contribuindo para a formação das estruturas sociais da Europa medieval.
Contribuição germânica para a formação da cultura medieval
A contribuição germânica para a formação da cultura medieval foi ampla e ocorreu principalmente após a entrada de diversos povos germânicos nos territórios do antigo Império Romano do Ocidente, entre os séculos IV e V. Francos, visigodos, ostrogodos, lombardos, anglos, saxões, vândalos e burgúndios ajudaram a transformar a organização política da Europa, substituindo a antiga administração imperial romana por reinos de base militar e territorial. Nesses reinos, ganharam importância os vínculos pessoais de fidelidade entre chefes e guerreiros, a valorização da coragem em combate, a autoridade dos líderes militares e a posse da terra como fonte de poder. Esses elementos contribuíram para o desenvolvimento de práticas que, posteriormente, seriam associadas ao sistema feudal, como a relação de dependência entre senhores e guerreiros, a descentralização política e o fortalecimento da aristocracia rural.
No campo cultural e jurídico, os germânicos também deixaram marcas significativas. Suas tradições orais, seus costumes e suas leis consuetudinárias influenciaram a organização social da Idade Média, especialmente por meio de códigos como a Lei Sálica, a legislação visigótica e as leis lombardas. A ideia de compensação por ofensas, a importância da família extensa, a honra guerreira e a fidelidade ao grupo foram valores incorporados ao cotidiano medieval. Com o tempo, esses elementos se misturaram à herança romana e ao cristianismo, formando uma cultura medieval caracterizada pela combinação entre tradições germânicas, instituições romanas e valores cristãos. Essa fusão ajudou a definir a organização política, social, religiosa e cultural da Europa ocidental durante a Alta Idade Média.
Os Hunos: os mais temíveis entre os bárbaros
Dentre os povos bárbaros, os hunos foram os mais violentos e ávidos por guerras e pilhagens. Eles não eram germânicos, mas sim de origem euroasiática. Eram nômades (não tinham habitação fixa e viviam percorrendo campos e florestas) e excelentes criadores de cavalos. Como não construíam casas, viviam em suas carroças e em barracas, que armavam nos caminhos que percorriam. Sua principal fonte de renda era a prática do saque aos povos dominados, aos quais espalhavam o medo, pois eram extremamente violentos e cruéis. O principal líder deste povo foi Átila, responsável por diversas conquistas em guerras e batalhas.
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Escudo usado pelos guerreiros lombardos. |
A invasão do Império Romano do Ocidente pelos povos bárbaros foi um longo processo de migrações, conflitos, acordos políticos e ocupações territoriais ocorrido principalmente entre os séculos IV e V. Os romanos chamavam de “bárbaros” diversos povos que viviam fora das fronteiras imperiais, como visigodos, ostrogodos, vândalos, suevos, francos, anglos, saxões, burgúndios, lombardos e hunos. Muitos desses grupos se deslocaram em direção ao território romano em busca de terras, proteção, riquezas e melhores condições de sobrevivência. Outro fator importante foi a pressão exercida pelos hunos, povo nômade vindo da Ásia Central, que provocou o deslocamento de várias populações germânicas para o interior do Império.
O enfraquecimento interno de Roma facilitou a entrada desses povos. O Império Romano do Ocidente enfrentava crise econômica, diminuição da arrecadação de impostos, instabilidade política, disputas pelo poder, enfraquecimento do exército e dificuldades para defender suas extensas fronteiras. Em muitos casos, os povos bárbaros não entraram apenas como invasores, mas também como aliados militares, conhecidos como federados, recebendo terras em troca de serviços ao exército romano. No entanto, as relações entre romanos e bárbaros eram instáveis. O saque de Roma pelos visigodos, em 410, e o saque realizado pelos vândalos, em 455, mostraram a gravidade da crise e a perda de controle do poder imperial sobre seus próprios territórios.
Em 476, o chefe germânico Odoacro depôs Rômulo Augusto, último imperador romano do Ocidente, episódio tradicionalmente considerado o marco do fim do Império Romano do Ocidente. Após esse processo, diversos reinos germânicos se formaram nos antigos territórios romanos, como o Reino Franco na Gália, o Reino Visigodo na Península Ibérica, o Reino Ostrogodo na Itália e o Reino Vândalo no norte da África. A invasão e a fixação desses povos não significaram o desaparecimento completo da cultura romana, mas sua transformação. A fusão entre tradições romanas, germânicas e cristãs contribuiu para a formação da sociedade medieval europeia.
Você sabia?
- O Império Romano do Ocidente caiu definitivamente quando o último imperador romano Rômulo Augusto, foi deposto pelos bárbaros hérulos no ano 476.
- Alguns historiadores denominam esse período histórico como “Migrações dos povos bárbaros”.
- Culturas germânicas na Europa central e setentrional, caracterizadas por estruturas tribais, facilitaram conversões em massa ao Cristianismo quando chefes tribais ou anciãos-chave abraçaram a nova religião.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 22/06/2026
Fontes de pesquisa consultadas para a elaboração do texto:
https://en.wikipedia.org/wiki/Barbarian
PILETTI, Nelson. História e Vida Integrada. São Paulo: Editora Ática, 1998.
VICENTINO, Cláudio. História Geral – volume único. São Paulo: Editora Scipione, 2011.
Vídeo indicado no YouTube:
- OS POVOS BÁRBAROS - POVOS GERMÂNICOS E A ORIGEM DO FEUDALISMO | Resumo de História para o Enem - Curso Enem Gratuito