O que foi
A Revolta dos Malês foi um movimento que ocorreu na cidade de Salvador (província da Bahia) entre os dias 25 e 27 de janeiro de 1835. Os principais personagens desta revolta foram os negros islâmicos que exerciam atividades livres, conhecidos como negros de ganho (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros). Apesar de livres, sofriam muita discriminação por serem negros e seguidores do islamismo. Em função destas condições, encontravam muitas dificuldades para ascender socialmente.
Contexto histórico
A Revolta dos Malês ocorreu em Salvador, na Bahia, na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, durante o Período Regencial (1831–1840). Naquele momento, a província da Bahia apresentava uma sociedade marcada pela escravidão, pela concentração de riqueza e por profundas desigualdades sociais. Salvador possuía uma numerosa população africana e afrodescendente, formada por pessoas escravizadas, libertas e livres, muitas das quais preservavam costumes, idiomas, práticas religiosas e formas de organização trazidas da África.
Entre os africanos que viviam na Bahia estavam grupos islamizados provenientes principalmente da África Ocidental. O termo "malê", provavelmente derivado da palavra iorubá imalê, era utilizado na Bahia para designar africanos muçulmanos. Muitos deles sabiam ler e escrever em árabe, conheciam textos religiosos islâmicos e mantinham redes de solidariedade que facilitaram a organização do movimento. Participaram da revolta africanos de diferentes origens étnicas, com presença expressiva de nagôs e hauçás.
A década de 1830 foi particularmente conturbada no Brasil. Após a abdicação de Dom Pedro I, em 7 de abril de 1831, o país passou a ser governado por regentes enquanto Dom Pedro II ainda era menor de idade. O período foi caracterizado por disputas políticas, instabilidade institucional e diversas revoltas provinciais. Na Bahia, essas tensões se combinavam com conflitos sociais relacionados à escravidão e com o temor das elites diante de possíveis rebeliões de africanos escravizados e libertos.
Outro elemento importante foi a experiência anterior de resistência africana na Bahia. Desde o início do século XIX ocorreram diferentes levantes de escravizados na região, particularmente envolvendo africanos de origem hauçá e nagô. Essas experiências contribuíram para a formação de redes de resistência e para a circulação de informações entre os africanos. A Revolução Haitiana (1791–1804), que resultou na independência do Haiti e no fim da escravidão naquele território, também fazia parte de um contexto atlântico de rebeliões e lutas contra o sistema escravista, embora não seja possível considerar suas ideias como a única ou principal explicação para a Revolta dos Malês.
Principais causas:
• A escravidão foi uma das causas fundamentais do movimento. Muitos participantes eram africanos escravizados que buscavam escapar das condições de exploração, violência e ausência de liberdade impostas pelo sistema escravista.
• A discriminação sofrida pelos africanos, inclusive aqueles que já haviam conquistado a liberdade, contribuiu para o descontentamento. A sociedade baiana do século XIX estabelecia profundas diferenças jurídicas e sociais com base na condição de liberdade, origem e cor da pele.
• A repressão às práticas religiosas africanas e islâmicas também teve importância. Embora os africanos desenvolvessem formas de preservar suas crenças, existiam pressões para sua integração ao catolicismo e medidas de vigilância sobre reuniões religiosas consideradas suspeitas pelas autoridades.
• A presença de uma comunidade muçulmana relativamente organizada em Salvador favoreceu a preparação da revolta. Alguns malês possuíam conhecimentos de leitura e escrita em árabe, utilizavam textos religiosos e mantinham vínculos entre diferentes grupos de africanos.
• A existência de redes de sociabilidade entre africanos escravizados e libertos permitiu a circulação de informações, o planejamento de ações e o recrutamento de participantes.
• As condições econômicas e sociais enfrentadas pela população africana urbana também contribuíram para o movimento. Muitos escravizados trabalhavam como carregadores, vendedores, artesãos e trabalhadores de ganho, permanecendo sujeitos ao controle dos senhores e à obrigação de entregar parte de seus rendimentos.
• A instabilidade política do Período Regencial favoreceu um ambiente de conflitos e revoltas em várias partes do Império. A fragilidade do poder central e as disputas entre diferentes grupos políticos criavam condições para a eclosão de movimentos de contestação.
• O contato com outras experiências de resistência escrava ocorridas na Bahia e em outras regiões das Américas ajudou a fortalecer entre alguns africanos a percepção de que o sistema escravista poderia ser enfrentado por meio de ações organizadas.
Objetivos da Revolta dos Malês:
• Um dos principais objetivos era combater a escravidão e libertar africanos escravizados, especialmente aqueles ligados aos grupos envolvidos na organização do movimento.
• Os revoltosos pretendiam enfrentar as autoridades, as forças militares e setores da sociedade que sustentavam a ordem escravista em Salvador.
• A defesa da liberdade religiosa também estava presente no movimento. Os malês buscavam condições para praticar o islamismo sem a repressão e as restrições impostas pela sociedade escravista e oficialmente católica.
• Parte dos planos conhecidos pelas autoridades indicava a intenção de derrubar o controle exercido pelas elites brancas sobre Salvador e modificar profundamente a estrutura de poder existente.
• Existem interpretações historiográficas segundo as quais os insurgentes pretendiam estabelecer uma ordem política influenciada pelo islamismo. Entretanto, a ideia de criação de uma "república islâmica no Brasil" deve ser apresentada com cautela, pois as fontes disponíveis não permitem afirmar que existisse um projeto político detalhado e compartilhado por todos os participantes.
• Também havia forte dimensão de solidariedade entre africanos. O movimento estava ligado à tentativa de ampliar a autonomia política, social e religiosa dos grupos africanos que viviam na Bahia.
Quem participou
Os participantes eram predominantemente africanos, tanto escravizados quanto libertos. Muitos pertenciam a grupos nagôs, denominação empregada na Bahia principalmente para africanos de língua iorubá, embora houvesse também integrantes de outras origens.
Os muçulmanos tiveram papel central na organização, mas a revolta não deve ser entendida apenas como um conflito religioso. Escravidão, discriminação, desigualdade social, identidade africana e resistência cultural estavam profundamente relacionadas às motivações do movimento.
Principais líderes da revolta
Manuel Calafate: africano liberto e um dos principais articuladores do movimento. Sua residência foi utilizada como local de reuniões entre os conspiradores.
Pacífico Licutan: africano nagô, também conhecido como Bilal, foi uma importante liderança religiosa muçulmana. Tinha grande influência entre outros africanos que viviam em Salvador.
Ahuna: identificado em algumas fontes como importante mestre religioso muçulmano, participou da organização da comunidade islâmica africana e é frequentemente relacionado à preparação do levante.
Luís Sanim: africano liberto e uma das figuras envolvidas na articulação da revolta. Sua participação aparece associada aos círculos de organização dos malês.
Elesbão do Carmo, conhecido como Dandará: africano liberto que também esteve ligado à preparação do movimento.
Observação sobre as lideranças
A identificação exata de todos os dirigentes é dificultada pelas características das fontes históricas disponíveis, muitas delas produzidas pelas próprias autoridades responsáveis pela investigação e repressão. Por esse motivo, os nomes, funções e níveis de participação atribuídos a determinados indivíduos podem variar entre os estudos historiográficos.
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Negro Muçulmano (pintura de Debret, século XIX); escravos islâmicos tiveram grande importância política na história do Brasil. |
Como foi a revolta
A Revolta dos Malês foi cuidadosamente planejada por africanos muçulmanos que viviam em Salvador. O levante estava previsto para ocorrer na madrugada de 25 de janeiro de 1835, aproveitando a realização de festividades religiosas na cidade. Segundo o plano, grupos de revoltosos partiriam de diferentes pontos de Salvador e se reuniriam para atacar posições estratégicas, libertar africanos escravizados e ampliar o número de participantes do movimento. Os organizadores também arrecadaram dinheiro para adquirir armas, roupas e outros recursos necessários aos confrontos.
A organização do movimento contou com uma eficiente rede de comunicação entre africanos escravizados e libertos. Muitos dos participantes muçulmanos sabiam ler e escrever em árabe, habilidade que facilitou a circulação de mensagens e instruções de maneira relativamente sigilosa. Documentos encontrados pelas autoridades após a revolta continham textos e anotações em árabe, alguns deles de caráter religioso. As reuniões realizadas em residências e outros espaços frequentados pelos malês também foram fundamentais para articular os participantes e definir estratégias.
Fim da revolta
O plano da Revolta dos Malês foi descoberto pouco antes de sua execução, na noite de 24 de janeiro de 1835, quando informações sobre a conspiração chegaram às autoridades de Salvador. Diante da denúncia, o governo mobilizou soldados, policiais e integrantes da Guarda Nacional. Os revoltosos anteciparam suas ações e entraram em confronto com as forças oficiais durante a madrugada de 25 de janeiro. Um dos combates mais violentos ocorreu na região de Água de Meninos. Mais bem armadas e organizadas, as tropas governamentais conseguiram derrotar o movimento. Cerca de 70 revoltosos morreram e aproximadamente 200 foram presos.
Após a repressão, os participantes foram julgados e receberam penas severas. Quatro revoltosos foram condenados à morte por fuzilamento, enquanto outros sofreram prisão, açoites, trabalhos forçados ou deportação para a África. Temendo novas rebeliões, as autoridades baianas aumentaram a vigilância sobre africanos escravizados e libertos, principalmente sobre reuniões e práticas religiosas islâmicas. A derrota da revolta, portanto, foi acompanhada pelo fortalecimento dos mecanismos de controle social e repressão sobre a população africana de Salvador.
Conclusão
A Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador em 1835, foi uma das mais importantes manifestações de resistência africana contra a sociedade escravista brasileira. Organizada principalmente por africanos muçulmanos, escravizados e libertos, revelou a capacidade de articulação política, religiosa e cultural desses grupos. O movimento deve ser compreendido dentro de um contexto marcado pela escravidão, pela discriminação, pela repressão às práticas religiosas africanas e pelas profundas desigualdades sociais existentes na Bahia.
Embora a luta contra a escravidão tenha sido um elemento central, os objetivos dos revoltosos não eram totalmente uniformes. Havia também a defesa da liberdade religiosa, a oposição ao domínio das elites brancas e a busca por maior autonomia dos africanos. Por isso, interpretações que apresentam a revolta apenas como um movimento abolicionista ou como uma tentativa claramente definida de estabelecer uma república islâmica devem ser tratadas com cautela, pois as fontes históricas não permitem afirmar que existisse um único projeto político compartilhado por todos.
Mesmo derrotada militarmente, a Revolta dos Malês teve grande importância histórica. A repressão posterior aumentou a vigilância, as punições e o controle sobre africanos escravizados e libertos, demonstrando o temor das elites diante de novas rebeliões. O movimento também evidencia que a escravidão brasileira foi constantemente contestada por diferentes formas de resistência. Dessa maneira, a Revolta dos Malês ocupa um lugar relevante na História do Brasil por mostrar o protagonismo dos africanos na luta contra a exploração, a desigualdade e a limitação de suas liberdades.
Curiosidades históricas:
O termo “malê” é de origem africana (ioruba) e significa “o muçulmano”.
Os revoltosos participaram das batalhas usando abadás de cor branca.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 08/08/2026
Fontes de referência:
O legado de negros muçulmanos que se rebelaram na Bahia antes do fim da escravidão
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 1988.
Vídeo indicado no YouTube:
A REVOLTA DOS MALÊS - EDUARDO BUENO - Buenas Ideias