Edgar Degas


 

Quem foi


Edgar Degas foi um pintor, escultor, gravurista e desenhista francês, nascido em Paris, em 19 de julho de 1834, e falecido na mesma cidade, em 27 de setembro de 1917. Embora tenha participado ativamente das exposições impressionistas, preferia definir-se como realista e mantinha uma postura independente em relação ao movimento. Tornou-se um dos artistas mais importantes da arte europeia do século XIX, destacando-se pela sólida formação técnica, pelo interesse na representação da vida urbana e pela investigação do movimento humano.




Biografia


Edgar Hilaire Germain de Gas nasceu em uma família de origem burguesa e financeiramente estável. Seu pai, Auguste De Gas, era banqueiro e descendia de uma família ligada ao comércio e às finanças, enquanto sua mãe, Célestine Musson, pertencia a uma família de origem francesa estabelecida nos Estados Unidos. Degas cresceu em um ambiente culto, no qual a música, a literatura e as artes eram valorizadas. A morte de sua mãe, ocorrida em 1847, quando ele ainda era adolescente, marcou profundamente sua juventude.

Inicialmente, Degas ingressou no curso de Direito da Universidade de Paris, em 1853, seguindo uma expectativa familiar comum entre os jovens de sua posição social. Seu interesse pelas artes, contudo, prevaleceu, levando-o a abandonar os estudos jurídicos. No ano seguinte, passou a frequentar o ateliê do pintor Louis Lamothe, discípulo de Jean-Auguste-Dominique Ingres. Em 1855, ingressou na Escola de Belas-Artes de Paris, onde recebeu uma formação baseada no desenho acadêmico, no estudo da anatomia e na observação das obras da Antiguidade Clássica.

Entre 1856 e 1859, viveu longos períodos na Itália, especialmente em Nápoles, Roma e Florença. Durante essa permanência, visitou parentes e estudou as obras de mestres do Renascimento, realizando numerosas cópias e desenhos em museus e igrejas. O contato direto com a tradição artística italiana contribuiu para consolidar sua formação. Ao retornar a Paris, iniciou sua carreira profissional e procurou conquistar espaço nos circuitos oficiais de arte, apresentando trabalhos no Salão de Paris a partir da década de 1860.

Durante a Guerra Franco-Prussiana, ocorrida entre 1870 e 1871, Degas serviu na Guarda Nacional francesa. Nesse período, começaram a se manifestar problemas em sua visão, que se agravariam progressivamente ao longo da vida. Após o conflito, viajou para Nova Orleans, nos Estados Unidos, onde permaneceu entre 1872 e 1873 junto de parentes maternos. De volta à França, aproximou-se de artistas como Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Camille Pissarro, Berthe Morisot e Mary Cassatt, participando da organização das exposições independentes realizadas entre 1874 e 1886.

Os últimos anos de Degas foram marcados pelo agravamento de seus problemas visuais, pelo isolamento social e por dificuldades para continuar trabalhando. Permanecendo solteiro e sem filhos, tornou-se uma figura reservada e, por vezes, considerada de temperamento difícil por seus contemporâneos. Após 1912, precisou abandonar o ateliê em que trabalhara durante muitos anos, devido à demolição do edifício. Faleceu em Paris, em 27 de setembro de 1917, aos 83 anos, e foi sepultado no Cemitério de Montmartre.

 

Retrato pintado de um homem branco, de barba e cabelos escuros, segurando um chapéu preto

Autorretrato (1863) de Edgar Degas.



Principais características das obras e do estilo artístico de Degas:

 

• Influência inicial do Neoclassicismo: as primeiras obras de Degas revelam a importância do desenho, da composição equilibrada e do estudo da Antiguidade, características associadas à formação acadêmica e à influência de Jean-Auguste-Dominique Ingres.

 

• Valorização do desenho: diferentemente de muitos impressionistas, Degas atribuía grande importância às linhas, aos contornos e à estrutura das figuras. Seus trabalhos eram frequentemente precedidos por numerosos esboços e estudos preparatórios.

 

• Representação de cenas cotidianas: o artista retratou situações da vida urbana de Paris, como ensaios de dança, apresentações musicais, cafés, corridas de cavalos e atividades realizadas nos bastidores dos espetáculos.

 

• Interesse pela figura humana: bailarinas, cantoras, músicos, passadeiras, modistas e mulheres em momentos de higiene pessoal aparecem com frequência em suas obras. Degas procurava registrar gestos naturais, posturas corporais e movimentos espontâneos.

 

• Estudo do movimento: uma das características centrais de sua produção foi a investigação dos movimentos do corpo. O artista representou figuras dançando, caminhando, penteando os cabelos, trabalhando ou descansando, evitando poses rígidas e idealizadas.

 

• Enquadramentos inovadores: Degas utilizou composições assimétricas, figuras parcialmente cortadas pelas bordas e pontos de vista elevados ou laterais. Esses recursos foram influenciados pela fotografia e pelas gravuras japonesas.

 

• Uso expressivo das cores: em suas primeiras obras, predominavam tonalidades mais controladas e próximas da tradição acadêmica. A partir das décadas de 1870 e 1880, suas composições passaram a apresentar cores mais intensas, contrastes marcantes e combinações cromáticas ousadas.

 

• Diversidade de técnicas: embora tenha utilizado óleo sobre tela, Degas destacou-se especialmente pelo emprego do pastel. Também trabalhou com carvão, guache, aquarela, gravura, monotipia, desenho e técnicas mistas.

 

• Pintura histórica na fase inicial: durante os primeiros anos da carreira, Degas produziu pinturas inspiradas em temas históricos, bíblicos e mitológicos. Posteriormente, abandonou gradualmente esses assuntos para dedicar-se à vida moderna.

 

• Ausência de idealização: suas figuras não eram apresentadas apenas em momentos elegantes ou harmoniosos. O artista também mostrava o cansaço, a concentração, o esforço físico e a solidão presentes nas atividades cotidianas.

 

 

A aula de dança, pintura de Degas

A aula de dança (1875): pintura de Degas.

 

 

Principais obras de Degas:



“A Família Bellelli” (1858–1867)

Produzida durante e após a permanência de Degas na Itália, a pintura retrata sua tia Laura Bellelli, o marido dela e as duas filhas do casal. A composição apresenta um ambiente familiar marcado pela formalidade e pela distância emocional entre os personagens. O rigor do desenho, a organização espacial e a atenção às expressões demonstram a influência da pintura acadêmica e dos mestres renascentistas em sua formação.

“A Orquestra da Ópera” (c. 1870)

Nesta obra, Degas representou os músicos posicionados diante do palco, enquanto as bailarinas aparecem parcialmente ao fundo. A escolha de um enquadramento incomum desloca o centro de atenção para os instrumentistas, principalmente para o fagotista Désiré Dihau, amigo do pintor. A cena evidencia o interesse do artista pelos ambientes de espetáculo e pelos bastidores da vida cultural parisiense.



“A Aula de Dança” (1874)

A pintura apresenta um grupo de jovens bailarinas durante uma aula conduzida pelo mestre Jules Perrot. Em vez de mostrar apenas o momento idealizado da apresentação, Degas registrou gestos cotidianos, como alongamentos, ajustes nas roupas, momentos de descanso e conversas. A disposição aparentemente espontânea das figuras resulta de uma composição cuidadosamente planejada, que conduz o olhar por diferentes partes da sala.



“O Ensaio de Balé no Palco” (1874)

Nesta obra, as bailarinas são representadas durante um ensaio, sob a observação de professores e músicos. A cena mostra o trabalho repetitivo e disciplinado necessário para a preparação dos espetáculos. O uso de áreas vazias, figuras parcialmente cortadas e pontos de vista elevados aproxima a composição dos enquadramentos fotográficos, recurso frequente na produção de Degas.



“Place de la Concorde” (1875)


A pintura retrata o visconde Ludovic-Napoléon Lepic atravessando a praça parisiense com suas duas filhas e um cachorro. Os personagens aparecem separados por espaços vazios e alguns deles são parcialmente cortados pelas bordas da tela. Essa composição transmite a sensação de um instante observado casualmente e reflete o interesse do artista pelo movimento, pela circulação urbana e pela vida moderna em Paris.



“O Absinto” (1875–1876)

Ambientada no Café de la Nouvelle Athènes, em Paris, a obra apresenta uma mulher e um homem sentados diante de bebidas alcoólicas. A postura abatida das personagens, a ausência de comunicação entre elas e o amplo espaço vazio da composição criam uma atmosfera de isolamento. Degas utilizou a cena para representar aspectos menos idealizados da vida urbana, como a solidão, a alienação e o consumo de álcool.



“Mulher Penteando o Cabelo” (c. 1885)


A obra mostra uma mulher vista de costas enquanto penteia os cabelos, em uma situação doméstica e privada. Degas evitou a pose convencional e idealizada, concentrando-se no gesto cotidiano e no movimento corporal. A composição integra uma série de trabalhos nos quais o artista representou mulheres durante atividades íntimas, observadas como se não percebessem a presença do espectador.



“A Banheira” (1886)

Realizada com pastel, a obra representa uma mulher agachada no interior de uma banheira, durante sua higiene pessoal. O ponto de vista elevado permite visualizar o corpo, os objetos e os móveis do ambiente. Em vez de apresentar uma figura posando, Degas registrou uma ação comum, explorando os movimentos do corpo e as formas produzidas pela combinação entre linhas, cores e superfícies.



“Pequena Bailarina de Quatorze Anos” (c. 1880–1881)

Essa escultura representa Marie van Goethem, uma jovem estudante da Escola de Dança da Ópera de Paris. Modelada originalmente em cera, a figura foi apresentada com cabelos verdadeiros, sapatilhas e uma saia de tecido, combinação considerada bastante inovadora naquele período. A postura corporal, a expressão e os materiais empregados afastavam-se das convenções tradicionais da escultura acadêmica e provocaram reações contraditórias quando a obra foi exposta.



“Bailarinas em Azul” (c. 1897)

Produzida em pastel, a composição apresenta bailarinas ajustando seus trajes antes de uma apresentação. As figuras são vistas de cima e parecem formar um movimento circular, reforçado pela repetição das formas e pela predominância dos tons azulados. A obra demonstra como Degas, nos últimos anos de sua carreira, utilizou cores mais intensas e formas menos detalhadas, em parte devido ao agravamento de seus problemas de visão.

 

Pintura Retrato da família Bellelli

Retrato da família Bellelli (1860): pintura de Edgar Degas.

 



Degas e o Impressionismo

Edgar Degas participou ativamente do grupo impressionista e esteve presente em sete das oito exposições organizadas pelo movimento entre 1874 e 1886. Sua aproximação com os impressionistas ocorreu principalmente pela rejeição ao controle exercido pelo Salão de Paris e pela defesa de exposições independentes. Assim como Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir e Camille Pissarro, interessou-se por temas da vida moderna, cenas urbanas, ambientes de lazer e situações cotidianas. Também explorou enquadramentos incomuns, cortes laterais, pontos de vista elevados e a impressão de movimento, características que aproximaram sua produção das experiências visuais do Impressionismo.

Apesar dessa ligação, Degas não aceitava plenamente a classificação de impressionista e preferia definir-se como realista ou independente. Diferentemente de muitos artistas do grupo, que pintavam ao ar livre para registrar variações momentâneas da luz, ele trabalhava principalmente em ateliê, apoiando-se em numerosos estudos e desenhos preparatórios. Sua formação acadêmica, o rigor do desenho e o interesse pela figura humana também o distinguiam dos demais impressionistas. Por isso, sua relação com o movimento foi marcada por proximidade e autonomia: compartilhou princípios de renovação artística, mas desenvolveu métodos e objetivos próprios.



Meios de pintura

Degas trabalhou com diversos meios artísticos, combinando técnicas tradicionais e experimentais. Utilizou principalmente a pintura a óleo, sobretudo nas primeiras décadas da carreira, mas tornou-se particularmente reconhecido pelo domínio do pastel, que lhe permitia produzir cores intensas, sobreposições, texturas e traços rápidos. Também empregou aquarela, guache, têmpera e técnicas mistas, por vezes combinando pastel com carvão ou tinta. Na gravura, explorou processos como água-forte, monotipia e litografia, aproveitando seus efeitos de luz e sombra. Essa variedade técnica permitiu-lhe adaptar os materiais à representação do movimento, dos gestos corporais e das cenas da vida moderna.




Principais inovações artísticas de Degas


• Degas renovou a composição pictórica ao utilizar enquadramentos assimétricos, figuras cortadas pelas bordas e amplos espaços vazios. Inspirado pela fotografia e pelas gravuras japonesas, criou cenas que parecem registrar instantes espontâneos, embora fossem cuidadosamente planejadas.

• Outra inovação foi a representação do movimento corporal em situações pouco idealizadas. Bailarinas, mulheres durante a higiene e trabalhadores foram mostrados em gestos cotidianos, posições de descanso ou momentos de esforço, rompendo com as poses rígidas da tradição acadêmica.

• O artista também desenvolveu novas possibilidades técnicas com o pastel, a monotipia e a combinação de materiais. Suas sobreposições de cores, texturas e traços visíveis deram maior intensidade às superfícies, enquanto a escultura “Pequena Bailarina de Quatorze Anos” inovou ao incorporar tecido, cabelo e outros materiais reais.

 

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 03/08/2026




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Bibliografia e vídeos indicados:

 

Fontes:

 

https://www.britannica.com/biography/Edgar-Degas

 

Edgar Degas Biography In Details

 

 

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Explicando EDGAR DEGAS | Artista da Vez - Canal Arte1

 


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